Experiência Humana no Sci-Fi: Luto nas Colônias Espaciais
- mutanteliterario
- há 39 minutos
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É fácil, no meio da ficção científica, deixar-se entreter por robôs, naves espaciais, alienígenas, tecnologias futuras e, de modo geral, pela capacidade gigantesca das pessoas envolvidas na criação desses mundos.
E esses elementos são tão importantes para definir o gênero que já os esperamos ao nos aproximarmos dele. Antes de ler um livro, assistir a um filme, série ou jogar um videogame do gênero, já espero um ou mais desses elementos, e espero por eles com empolgação.
Quero ver como vão funcionar dentro desse novo mundo, se serão inspirados em obras anteriores ou se serão totalmente únicos; se vão fazer sentido ou não. Quero ver a forma como serão representados, quero ver as animações, os gráficos, os elementos visuais usados para dar vida a eles.
Mas é tão fácil — e tão esperado — encontrar e se sentir atraído por esses elementos da narrativa, que acredito que, às vezes, ficamos vulneráveis, tanto fãs quanto artistas, a esquecer que existe algo por trás disso: que o elemento humano da narrativa deveria importar mais.

Recentemente, tive o privilégio de entrevistar o renomado autor de ficção científica Cory Doctorow, e, durante nossa conversa, ele afirmou:

Também tive o privilégio de conversar e entrevistar outro gigante da literatura fantástica, o grande Adrian Tchaikovsky, e, num sentimento bastante similar, ele diz:
E posso dizer categoricamente que concordo com as afirmações, e com o sentimento que elas pretendem transmitir, que a ficção científica é extremamente eficiente em falar de nós, da nossa sociedade, nossas lutas, nossos dilemas, das pessoas.
As minhas ficções científicas favoritas, aquelas que nunca me abandonaram, que já li/assisti/joguei múltiplas vezes e às quais pretendo retornar até o fim dos meus dias, são justamente aquelas que, através de seus “robôs, naves espaciais, alienígenas, tecnologias futuras e da capacidade gigantesca das pessoas envolvidas na criação desses mundos”, conseguem me tocar, conseguem alcançar a minha humanidade.
Histórias em que esses elementos são essenciais para chegar até mim, para transmitir uma ideia, um sentimento, uma mensagem, uma reflexão, e não aquelas em que tais elementos estão ali apenas como decoração.

E, se há uma pessoa que faz isso de forma excepcional, é, sem dúvida, Anna Martino, uma das minhas autoras favoritas de todos os tempos. E, se você ainda não leu nada da Anna Martino, espero que trate de corrigir essa falha tão grave.
Anna Martino é uma autora capaz de trazer a humanidade de forma tão bonita e completa aos seus trabalhos e faz isso sem negligenciar os elementos da ficção científica que tanto amamos.
Recentemente, reli Fortunato Poeira, uma das minhas leituras favoritas do ano passado, e voltei a me impressionar com a forma como ela fala de nós: do cotidiano, do luto, do amor, da cultura, do preconceito, do senso de comunidade, etc.

Em Fortunato Poeira, vivemos num futuro em que a humanidade depende de colônias espaciais agrícolas para a produção de alimentos.
Nesse cenário, acompanhamos a história de Antônio, que tenta organizar o funeral de seu amigo Fortunato, um trabalhador que vivia entre a Terra e a colônia espacial Bertha Lutz. Para cremá-lo, ele precisa encontrar seus familiares na Terra, uma busca que revela disputas sobre memória, afeto e o verdadeiro significado de família.
“O amor que ele tinha era todo pras estrelas. Todo, todo o amor era pra estrada, não sobrou nada para os outros. Nem para mim, nem para as pessoas que ele foi encontrando, nem para a filha ou para a esposa. Ele deixou traços dele pra trás, como todo mundo deixa, mas nada muito fixo.” (p.64)
O cotidiano e as experiências que todos temos em comum talvez não pareçam tão atrativos ou tão convidativos para serem explorados. E acho que não estou errado em afirmar que as narrativas heroicas, épicas, repletas de ação e com altíssimos riscos tendem a chamar mais a atenção.
E, como fã de ambas as abordagens, entendo perfeitamente o apelo das duas. Mas o que Anna Martino faz em suas obras — e hoje, falando particularmente de Fortunato Poeira — é, para mim, o melhor que a ficção científica pode produzir.
Um dos grandes destaques de Fortunato Poeira, para mim, é sua reflexão sobre o luto.
Desde que fiquei doente há aproximadamente três anos, penso muito na morte, e penso também em como vou ser percebido quando eu não estiver mais aqui.
E Anna faz um excelente trabalho ao, através de uma narrativa sobre colônias espaciais, falar sobre o processo de luto: os sentimentos complexos que a morte de alguém pode despertar em nós: Saudade, raiva, tristeza, ressentimento, culpa etc. todos perfeitamente válidos.
A obra, de forma muito bonita, destaca que uma mesma pessoa pode ser percebida por várias outras de inúmeras formas diferentes. Um grande amigo pode ter sido um péssimo pai; uma pessoa fechada e grossa pode ter sido uma irmã cuidadosa e atenciosa; alguém que nos magoou pode facilmente ter sido gentil com outra pessoa.
E isso não significa perdoar ou justificar ações, mas apenas reconhecer que uma pessoa representa coisas diferentes para pessoas diferentes. Somos todos complexos.
Com Fortunato Poeira, Anna Martino toca as sensibilidades humanas, fala de futuros possíveis, de diferentes formas de se organizar e viver em comunidade, formas que não são perfeitas, mas que ainda assim são humanas.
Eu poderia falar tanta coisa sobre Fortunato Poeira: a forma como aborda preconceitos, vida em comunidade, relações familiares, visões de futuro, sustentabilidade, política e muito mais. Mas confesso que, neste momento, o que mais me chama atenção é como Anna Martino conseguiu falar de tudo isso através de uma narrativa íntima sobre um funeral em uma colônia espacial.
Ficção científica pode ter robôs, alienígenas, naves espaciais, guerras interplanetárias, máquinas do tempo, realidades alternativas, mas ficção científica precisa ter nós também.




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