Gone: uma distopia sobre desigualdade e sobrevivência
- Carlos Pedroso
- há 11 horas
- 2 min de leitura
Sou um leitor assumidamente apaixonado por ficção científica e mundos distópicos. Narrativas que exploram futuros possíveis e, às vezes, assustadoramente plausíveis, sempre me instigam. Gosto desse exercício de imaginar cenários, entender perspectivas e refletir sobre o que pode (ou não) nos esperar adiante.
Ao ler Gone, novo lançamento da editora Poptopia, me propus, mais uma vez, a mergulhar nesse tipo de reflexão. A obra apresenta um universo onde naves luxuosas funcionam como verdadeiras metrópoles suspensas, enquanto os planetas se tornam espaços marginalizados, quase depósitos da sociedade. A metáfora é direta e funciona: o contraste social apresentado na trama dialoga com desigualdades reconhecíveis no mundo real.

O início é dinâmico e envolvente. Somos levados a um planeta distante, onde trabalhadores braçais sobrevivem ao reabastecer naves espaciais. É nesse cenário que conhecemos Abi, jovem perspicaz que domina os caminhos para furtar essas embarcações sem levantar suspeitas. Vinda de uma família humilde, ela tenta ajudar a mãe grávida, abandonada pelo pai. Movida por essa urgência, acaba se aproximando de um grupo de sabotadores que se aproveita de sua habilidade. O que parecia uma oportunidade transforma-se em risco: Abi embarca clandestinamente em uma colossal nave de luxo, em busca de uma vida melhor, sabendo que nem todos ao seu redor são quem aparentam ser.
Esse primeiro arco estabelece com eficiência os pilares da narrativa: desigualdade social, sobrevivência e amadurecimento forçado. A jornada de Abi se desenha como o centro emocional da história, sustentando bem o ritmo inicial.

A partir do segundo arco, no entanto, a trama amplia consideravelmente seu escopo. Novas linhas narrativas são introduzidas, o foco se desloca dos conflitos pessoais de Abi para os interesses dos sabotadores, e surge uma entidade poderosa cuja presença altera o rumo da história. Essa expansão do universo pode ser vista como uma tentativa de complexificar o enredo, mas também exige maior atenção por parte do leitor. Em alguns momentos, a multiplicidade de caminhos narrativos torna a progressão menos fluida.
O salto temporal que ocorre posteriormente reforça essa sensação de ruptura. Embora recursos como esses possam enriquecer a construção dramática, aqui acabam deixando lacunas que demandam mais desenvolvimento. A impressão é de que a obra tenta abraçar muitas ideias simultaneamente, o que dilui parte da força estabelecida no início.
No terceiro e último arco, o roteiro busca reorganizar os fios soltos e retomar o eixo principal, especialmente o desejo de Abi de voltar para casa. Há esforço para dar fechamento às diversas frentes abertas anteriormente e, em parte, isso é alcançado. Ainda assim, permanece a sensação de que o potencial da premissa inicial era tão sólido que talvez exigisse uma condução mais enxuta. Em narrativas desse tipo, por vezes, menos pode ser mais.
Se há consenso, é no aspecto visual. A arte é deslumbrante, detalhada e ambiciosa. As páginas impressionam pela escala e pela construção do universo, proporcionando uma experiência estética que sustenta o impacto, mesmo nos momentos em que o roteiro oscila.
Gone é uma obra que começa com grande potência e propõe reflexões pertinentes sobre desigualdade e pertencimento. Ao expandir demais seus horizontes narrativos, perde parte da coesão inicial, mas ainda oferece elementos suficientes para justificar a leitura, especialmente para quem aprecia ficção científica com crítica social e forte apelo visual.
Gone está em pré-venda no site Editora Poptopia




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