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Por que fingir gosto empobrece a leitura?

  • Foto do escritor: Master Nerd
    Master Nerd
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Existe uma diferença profunda entre reconhecer o valor de uma obra e experimentar sentido a partir dela, e confundir essas duas situações é um dos vícios mais recorrentes e mais empobrecedores na forma como se leem os quadrinhos hoje.


Fingir gosto por um autor consagrado é um deslocamento da leitura do campo da experiência para o campo da validação. O leitor deixa de se perguntar o que a obra faz com ele e passa a se preocupar com o que sua reação revela sobre sua formação, seu repertório ou sua suposta sofisticação cultural. É nessa hora que a leitura passa a ser performance, com o objetivo de impactar outros leitores com uma suposta “erudição”.


Quadrinhos são uma linguagem que se realiza na relação íntima entre ritmo, imagem e pausa, e essa relação só se completa no contato direto entre obra e leitor. Quando alguém finge gostar de um autor, esse contato é mediado por um consenso externo que antecede a experiência. A obra vem carregada de expectativa de grandeza, de importância histórica ou de prestígio, o que condiciona o olhar. O leitor não reage ao que está diante de si, mas ao peso simbólico do nome que assina a obra. O resultado é uma leitura intelectualmente correta, historicamente informada e emocionalmente vazia, onde se reconhece o mérito, mas não se estabelece vínculo, e sem vínculo, na minha opinião, não há efetivamente uma leitura.


Tecnopapas, de Alejandro Jodorowsky, Zoran Janjetov e Fred Beltran. Publicado no Brasil pela Editora Pipoca & Nanquim.


Muitas vezes, esse fingimento não decorre da arrogância. Existe receio de admitir que algo não tocou, não provocou. Como se admitir isso revelasse uma falha do leitor, e não uma fricção legítima entre ele e a obra. Autores cercados por uma aura de complexidade, radicalidade ou profundidade, como Jodorowsky, Chris Ware, Crumb, entre tantos outros, costumam gerar esse tipo de bloqueio. Quando a leitura não funciona, o leitor conclui que ainda não está pronto, que falta bagagem, que não alcançou o nível necessário para compreender aquela grandeza. O erro, nesse raciocínio, nunca está na obra. Mas toda obra, por mais relevante que seja, carrega excessos, escolhas questionáveis, zonas de esgotamento e limites internos. Negar isso é transformar arte em dogma. Esse processo se agrava quando o autor deixa de ser lido como obra e passa a ser usado como uma espécie de fetiche.


Em certos círculos, citar determinados nomes funciona como um marcador de pertencimento, uma prova de capital simbólico. Dizer que gosta não significa mais relatar uma experiência, mas sim declarar um alinhamento de grupo. O nome do autor passa a valer mais do que o efeito real da leitura. Nesse cenário, o leitor começa a se questionar se rejeitar determinada obra o colocaria fora de um grupo, de uma tradição ou de uma narrativa de legitimidade.


O efeito colateral mais grave disso é o empobrecimento do debate. Quando todos afirmam gostar dos mesmos autores, não há discordância, não há leitura crítica. A conversa se reduz a afirmações genéricas sobre importância e genialidade, categorias amplas demais para gerar pensamento. A crítica, no entanto, nasce justamente do atrito. Daquilo que funciona e do que falha, do que provoca e do que repele, do que envelhece mal, do que se sustenta mais no discurso do que na experiência concreta da leitura.


Há ainda um impacto prático sobre o próprio hábito de leitura. Quando o leitor se obriga a gostar do que é considerado importante, a leitura se torna uma tarefa moral. O prazer cede lugar à obrigação, e a curiosidade é substituída pelo medo de errar. Com o tempo, a leitura deixa de ser um espaço de descoberta e passa a ser um teste constante de legitimidade. Leitores que aceitam não gostar mantêm a leitura viva, porque se permitem abandonar, escolher, errar e seguir adiante sem culpa. Uma leitura madura começa quando se aceita que respeitar não é amar. Reconhecer a importância histórica de um autor não obriga ninguém a se emocionar com sua obra, assim como gostar profundamente de um trabalho não o transforma automaticamente em pilar do cânone.


Jimmy Corrigan, de Chris Ware. Publicado no Brasil pela Quadrinhos na Cia.


Admitir que algo não funciona para você não diminui o autor, na realidade, amplia o leitor. Muitas vezes, só quem leu com atenção suficiente consegue formular um “isso não me convence” que seja honesto e fundamentado. Fingir gosto protege o ego, mas empobrece a experiência. Assumir o “não-gosto” fortalece o olhar crítico e devolve à leitura seu caráter mais essencial, que é o de um encontro vivo entre a obra e as sensações que ela provoca. Quadrinhos não precisam de unanimidade nem de devoção. Precisam de leitores atentos, dispostos a ler sem medo, sem obrigação e sem fingimento. Porque toda obra realmente grande sobrevive ao desacordo e, muitas vezes, se revela ainda mais interessante quando lida fora da reverência automática.


Dito tudo isso, nada aqui é um manifesto contra autores “difíceis” ou contra a grandeza de certas obras. Eu adoro o simbolismo excessivo, a violência ritualística e o humor caótico de Jodorowsky, reconheço sua força imagética e seu impacto na história dos quadrinhos. Ainda assim, sempre que fecho um livro dele, sigo com a sensação de ter vivido uma experiência intensa, mas não necessariamente a melhor já vivida. Já com Brubaker, mesmo reconhecendo seus limites e sabendo que ele não reinventa a linguagem, saio quase sempre mais feliz, mais envolvido e mais realizado como leitor. E talvez seja justamente aí que a leitura se revela mais honesta. No meu direito, admitir que aquilo que me sustenta enquanto leitor nem sempre é aquilo que a Gibisfera quis me ensinar a venerar.


Matar ou Morrer, de Ed Brubaker e Sean Phillips. Publicado no Brasil pela Editora Mino.

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