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A pressa de consumir e a beleza de revisitar

  • Foto do escritor: Ronaldo Gillet
    Ronaldo Gillet
  • há 47 minutos
  • 6 min de leitura

Arte de Pawel Kuczynski
Arte de Pawel Kuczynski

Me deparei recentemente com algo patológico. Uma pressão cultural raramente diagnosticada a olho nu, mas que molda nosso consumo audiovisual. A ideia de que precisamos assistir (pra ontem) tudo que está em alta hoje. Quando uma produção recém lançada nos serviços de streaming domina as redes sociais, rapidamente tende a virar “necessidade de participação”. Caso você não tenha degustado a saborosa série do momento, parece que só lhe resta recolher-se a um espinhoso vale da insignificância.


Chamam isso de FOMO, sigla para “Fear of Missing Out”, o medo de ficar de fora. É a ansiedade de imaginar que os outros estão vivendo algo relevante enquanto você permanece à margem. Na era do consumo cultural “fast food”, essa sensação ganhou escala industrial. O que antes era simples curiosidade virou urgência social. A barreira do ‘querer ver’ foi ultrapassada, por medo de ficar de fora das rodas de conversa virtuais ou daqueles happy hours com os melhores amigos de todos os tempos da última semana.

O fenômeno vai além da simples curiosidade, ele se insinua como imperativo social, um código de inclusão que exige presença constante. Não obstante a isso, hoje, toda conversa em grupo perpassa pelo conhecimento prévio de referências audiovisuais que servem como credencial de pertencimento.


Fazendo até um mea culpa, ou seja, me colocando nesse bolo, entendo que o problema não está no que assistimos, mas no motivo pelo qual assistimos algo. Plataformas e algoritmos conhecem isso melhor do que nós, transformando a novidade em urgência, incentivando a descoberta incessante e empurrando o próximo título goela abaixo como se ele fosse o único capaz de nos garantir o mínimo de relevância cultural na sociedade líquida cantada em verso e prosa nas análises de Zygmunt Bauman.



E foi olhando para as minhas próprias escolhas nessa sociedade acelerada, onde não ter assistido Game of Thrones (e seus Spin-Offs) do início ao fim - sim, eu sou uma dessas raras criaturas -, parece algo capaz (ao seu próprio olhar e, principalmente, ao dos outros) de arrancar as raízes da sua alma nerd, que algumas percepções começaram a ganhar forma. Descobrir algo novo é estimulante, claro. A novidade provoca, instiga, cria a sensação de estar acompanhando o pulso do mundo do entretenimento.



Na contramão desse imediatismo, revisitar suas séries favoritas quase nunca é tratado como algo genuinamente recompensador. A repetição não alimenta tendências, não move métricas, não aquece os trending topics. Dentro da engrenagem cultural contemporânea, a lógica industrial não valoriza o retorno, apenas o fluxo contínuo. O importante não é aprofundar, é avançar - mesmo que na velocidade 2x.


Essa lógica tem nome: economia da atenção. Na obra The Attention Merchants, de Tim Wu, o autor mapeia como nossa atenção foi transformada em recurso valioso, disputado freneticamente por plataformas que competem por cada segundo de olhar. No modelo de streaming, a novidade constante é a moeda de troca, porque ela cria engajamento compulsivo - a sensação de que sempre há algo mais importante que você ainda não viu. Revisitar, por outro lado, é considerado redundante, quase um desperdício de tempo do ponto de vista mercadológico.



Do ponto de vista humano, revisitar tem sentido profundo. Pesquisas recentes confirmam essa hipótese. Em 2023, um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology sobre a “intenção de assistir repetidamente filmes e séries” revelou que indivíduos com alta propensão à nostalgia e retorno a materiais já vistos fazem isso não por fuga, mas por uma espécie de diálogo emocional com suas próprias memórias. O estudo apontou que cerca de 68% dos participantes relataram revisitar títulos não porque a repetição evocava “conforto emocional e sentimento de pertencimento social”. Além disso, mais da metade declarou que reassistir ajudava a regular o estresse, funcionando como um porto seguro em momentos de sobrecarga cognitiva.


Há, portanto, um componente psicológico real de que revisitar não é fruto de um hábito vazio, mas resposta emocional pro eu interior de muita gente. Assistir pela enésima vez The Office é experimentar diferentes camadas de humor e observação humana que só se revelam quando a surpresa inicial já se esvaiu. É perceber nuances nos silêncios dos olhares de certos personagens e entender como o constrangimento cotidiano possui uma linguagem própria. Retornar ao universo moralmente ambíguo de Dexter ao menos duas vezes nos transforma em observadores mais sensíveis à construção ética da narrativa. Duas jornadas por Breaking Bad não são redundância, mas um estudo sobre escolhas trágicas, consequências e fatalismo que apenas a repetição permite mapear.


No cinema, essa experiência se torna ainda mais visceral. A trilogia de O Poderoso Chefão não envelhece e respira com a vida de quem se permite voltar a ela. Clássicos dos anos 1980 guardam uma energia quase artesanal. Filmes cult dos anos 1970, como Taxi Driver, dirigido por Martin Scorsese, não são apenas marcos históricos, mas estímulos diretos à interiorização emocional com sombras capazes de marcar de maneira transversal a nossa própria experiência de mundo.


E essa lógica não está isolada na psicologia da nostalgia. O conceito de capital cultural, formulado por Pierre Bourdieu, ajuda a compreender essa dicotomia entre “ver para pertencer” e “rever para compreender”. Para Bourdieu, certos bens culturais funcionam como marcadores de status, formas de capital simbólico que determinam distinção social. Se o consumo superficial de títulos populares se torna uma forma de provar capital simbólico em grupos sociais, a revisitação é o aprofundamento de capital afetivo e cultural pessoal, não exibicionista, que enraíza memórias e emoções em vez de exibir conhecimento. É diferente de assistir para comentar; é assistir para sentir.


A cultura da atualização permanente cria também o que especialistas chamam de “fadiga de escolha”, ou seja, um mergulho na sensação de que, por mais que se assista, nunca se está de fato atualizado. É uma corrida sem linha de chegada, onde o espectador se torna produto da sua própria ansiedade.


Nos quadrinhos essa experiência é ainda mais evidente. Reler Watchmen é perceber que a primeira leitura tocou somente a superfície de uma construção narrativa feita de enigmas, ironias e contradições morais. Cada retorno às sagas clássicas dos X-Men ou fases clássicas do Superman, transforma aquilo que era familiar em terreno fértil para novas descobertas. Obras que me marcaram profundamente - como Brega Story, de Gidalti Júnior -, mostram que o impacto inicial era apenas uma porta de entrada para observações que um dia eu farei (quando estiver pronto pra isso) e que a plenitude da experiência só se revela - de fato - quando se investe tempo em cada quadro, gestos e diálogos de personagens; e nas pausas a cada virada de página.


O efeito mais silencioso da obsessão por estar em dia é transformar o espectador num corredor olímpico de 100 metros rasos. Corremos para terminar, comentar, e para não parecer desinformado. E nessa corrida sem linha de chegada, quase sempre, não há tempo para usar em sua plenitude nenhum dos nossos sentidos. Quando o consumo vira checklist, a experiência perde seu caráter essencial de tocar, abalar e permanecer sem prazo de validade.


Ratifico que revisitar é um gesto de desaceleração. É dizer que certas histórias merecem ser envernizadas pelos pontos de vista que podem estar submersos - esperando para ser arrancadas dos cofres da Atlântida escondida no fundo da alma do público. Nem tudo precisa ser consumido uma única vez e descartado como uma embalagem de salgadinho ultraprocessado. O novo tem seu encanto, mas a profundidade raramente nasce na primeira exposição. Algumas melodias exigem mais de uma aproximação ao pé do ouvido, e algumas emoções só florescem quando revisitadas por quem já não é mais o espectador de outrora.


Aliás, o espectador que se permite uma nova viagem a um destino já conhecido entende que nem toda obra precisa ser única para ser significativa. Algumas histórias merecem muitas vidas, e quando você retorna a elas, não está regressando, mas descobrindo que o que realmente importa não é o instante do primeiro encontro, mas tudo aquilo que essa obra vai continuar te proporcionando.


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