Vizunga e a importância dos resgates históricos
- Carlos Pedroso
- há 2 dias
- 3 min de leitura
Gosto de dizer que há algo peculiar nos resgates históricos, algo diferente, talvez um espelho que reflita o momento em que uma obra foi publicada ou mesmo concebida por seu autor. Mais do que isso, esse transporte para um tempo que já não é nosso, que evoluiu e se transformou no momento atual. Pra mim é isso que um resgate histórico representa, uma chance de conhecer através dos olhos de hoje como era o passado, e por um momento viajar para esse tempo.

Poucas obras têm esse poder e, quando o têm, muitas vezes nos dão a sensação de algo datado, “daquela época”. Mas afinal, todas as obras são frutos do seu tempo? Penso que sim e que não, por exemplo, a ficção sempre tenta nos levar a um ponto futuro, já a história nos leva a um ponto passado. Quer dizer que talvez não haja obra alguma presente. Mas isso é outro texto. Por que Vizunga consegue nos levar para o passado do passado, sem sair das folhas, apenas imaginando e apreciando o que estamos lendo.

Temos a mania, e que mania feia, de apenas levar obras e pessoas após sua morte, me parece que não valorizamos o vivo, e sim o morto. Acho triste, mas compreensível, uma vez que é muito difícil estimar uma obra enquanto a pessoa ainda está produzindo muitas por aí. Flávio Colin não é diferente, depois de morto, virou obra rodando por quase todas as editoras do Brasil. Não por menos, com seu traço marcante, nos presenteou no passado e agora no presente com histórias magníficas e, principalmente, com sua arte muito, mas muito à frente de seu tempo.
Com Vizunga não é diferente, um quadrinho que nasceu das tiras e viajou pelo mundo com seu personagem cheio de vida, que muitas vezes conta suas histórias de pescador, difícil de não acreditar. Mas o curioso, como eu mesmo falei há pouco, é uma narrativa em tiras ser tão cativante e, ao mesmo tempo, tão rica em informações. É fato sabido que antigamente as obras não tinham medo de ser o que eram, textos complexos, desafios aos leitores, hoje queremos tudo mastigado, mais figura menos texto e assim vamos nos apegando ao passado, pelo menos aquelas como eu que gostam de uma boa história sem amarras.
O que mais me chama a atenção nas obras de Colin, além de sua arte, é claro, é a forma como ela conduz uma narrativa, leve, direta, mas sempre cheia de vida, com uma história que exige muito de quem escreve. Vizunga é dessas que o autor teve que pesquisar, conhecer e se aprofundar, visto que seu personagem principal viajou por diversos cantos do mundo e sempre com uma nova história para contar, cheia de detalhes e momentos, no mínimo, peculiares. Esse estilo narrativo me agrada bastante, principalmente quando o narrador faz parte da história e conduz, com “fatos” muitas vezes ludibriosos, suas aventuras.
Ao final de Vizunga ficou o gostinho de quero mais, quero conhecer mais lugares pelos olhos e histórias de Vizunga, quero saber mais sobre leões, elefantes e outros monumentos históricos. Afinal, é para isso que histórias servem, para nos levar a lugares a que talvez nunca iremos e, se formos, sempre teremos a sensação de que nossos personagens já estiveram aqui.
Obs.: Alguns pontos de destaque da obra: primeiro, o prefácio bem feito; gosto muito dessas introduções; elas enriquecem as obras. Segundo ponto, o trabalho de restauração, muito bem conduzido, é tudo bem explicado ao final do quadrinho. E, terceiro e último, o posfácio, completa muito bem a obra.
Vizunga foi publicado originalmente entre 1964 e 1966 na Folha de S.Paulo. Algumas das tiras chegaram a ser reeditadas nos anos 1970 na revista Eureka, mas estavam fora do alcance do público desde então. Esta é a primeira vez que as tiras de Vizunga são reunidas em um livro, em um trabalho minucioso de pesquisa, resgate e restauração da obra original de Colin.




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