Editora Atomu: escavando a história dos quadrinhos que o Brasil quase esqueceu
O mercado brasileiro de quadrinhos vive uma situação curiosa. Nunca tivemos tantos lançamentos diferentes chegando às livrarias, às comic shops e aos financiamentos coletivos, mas, ao mesmo tempo, ainda existem buracos enormes quando olhamos para a própria história da mídia. Conhecemos Batman, Superman, Homem-Aranha, Watchmen, Maus, Akira e tantos outros clássicos, mas existe todo um universo anterior ou simplesmente paralelo a essas obras que permanece praticamente desconhecido por aqui.

É justamente nesse território que a Editora Atomu começa a chamar a atenção. Em vez de disputar espaço exclusivamente com os grandes lançamentos contemporâneos, a editora parece interessada em olhar para trás e perguntar: o que existe na história dos quadrinhos que ainda não chegou ao leitor brasileiro?
E essa talvez seja a parte mais interessante de sua proposta.
Um dos exemplos é “Ele a Enganou” (He Done Her Wrong), de Milt Gross. Publicado originalmente em 1930, o livro é uma das obras que bagunçam um pouco nossa percepção sobre a história das chamadas graphic novels. Muito antes do termo ganhar a popularidade que teria décadas depois, Gross já havia produzido uma narrativa longa, publicada originalmente em formato de livro, construída praticamente sem diálogos. Mas reduzir Ele a Enganou à condição de “curiosidade histórica” seria desperdiçar justamente aquilo que torna o trabalho tão divertido.

Milt Gross não parece interessado em produzir uma obra sisuda para provar que os quadrinhos são arte. Pelo contrário. Existe uma energia quase anárquica em suas páginas. Personagens correm, saltam, brigam, atravessam os limites dos quadros e transformam cada página em uma pequena sequência cinematográfica.
É um quadrinho em movimento. E é particularmente curioso perceber que estamos falando de uma obra de 1930. Gross utiliza enquadramentos variados, sequências silenciosas, desenhos dentro de balões, elementos direcionais e personagens que ultrapassam as próprias molduras dos quadros. Tudo isso em uma narrativa que mistura melodrama, romance, aventura e humor pastelão.
A influência do cinema mudo também não surge por acaso. Gross trabalhou com Charlie Chaplin durante a produção de The Circus, de 1928, e a relação entre seu humor gráfico e a comédia física daquele período é bastante perceptível. Reedições modernas da obra também destacam justamente essa conexão entre Gross e Chaplin. Só que existe uma camada ainda mais interessante nessa história.
Quando falamos da formação do mangá moderno, inevitavelmente chegamos a Osamu Tezuka. Quadros cinematográficos, mudanças de enquadramento, cenas silenciosas, humor misturado ao drama e uma narrativa extremamente dinâmica são frequentemente associados à revolução promovida pelo chamado “Deus do Mangá”.
E Milt Gross aparece justamente entre as referências discutidas quando pesquisadores analisam a formação narrativa de Tezuka.
De repente, aquela obra americana de aparência cartunesca publicada em 1930 deixa de parecer apenas uma peça arqueológica e passa a funcionar como uma espécie de elo perdido entre diferentes tradições dos quadrinhos. Isso torna a publicação brasileira particularmente interessante.

Porque uma editora pequena dificilmente vai competir com Marvel, DC, Panini ou grandes editoras usando quantidade. O caminho precisa ser outro: curadoria.
E é justamente aí que a Atomu pode encontrar sua identidade.
Outro exemplo é “Archy & Mehitabel”, obra de Don Marquis ilustrada por George Herriman, o criador de Krazy Kat. Aqui novamente estamos diante de algo difícil de encaixar perfeitamente nas divisões modernas entre quadrinho, literatura e livro ilustrado.

Archy é uma barata que teria sido poeta em uma vida anterior. Durante a noite, ela invade o escritório de Marquis e utiliza uma máquina de escrever para registrar poemas, pensamentos e observações sobre o mundo. Como não consegue pressionar duas teclas simultaneamente, não consegue utilizar a tecla Shift, uma brincadeira que determina, inclusive, a forma peculiar dos textos.
Ao seu lado está Mehitabel, uma gata de rua que acredita ter sido Cleópatra em outra encarnação.
Parece absurdo.
E é.
Mas é justamente dessa premissa que nasce uma sátira sobre o comportamento humano, a sociedade, a sobrevivência e todas aquelas pequenas contradições que continuamos repetindo mais de um século depois. Os personagens surgiram nas colunas de Don Marquis ainda em 1916, e as histórias de Archy e Mehitabel começaram a ser reunidas em livro em 1927.
Quando colocamos livros como Archy & Mehitabel e Ele a Enganou lado a lado, o tipo de catálogo que a Atomu está construindo começa a ficar mais evidente.
Não são simplesmente “quadrinhos antigos”.
São obras que ocupam regiões estranhas da história da mídia.
Quadrinho ou livro ilustrado?
Romance gráfico ou livro de humor?
Literatura ou arte sequencial?
Talvez a pergunta mais interessante seja justamente: por que precisamos escolher? Hoje o termo graphic novel virou quase uma etiqueta comercial. Muitas vezes basta colocar uma história completa em capa dura e pronto: temos uma “graphic novel”. Mas visitar trabalhos produzidos décadas antes da popularização dessa expressão mostra que autores já experimentavam narrativas longas, formatos editoriais diferentes e novas relações entre texto e imagem quando boa parte das convenções modernas ainda estava sendo inventada.
É por isso que iniciativas editoriais como essa têm valor. Não porque todo quadrinho antigo seja automaticamente uma obra-prima. Definitivamente não é.
E também não porque precisamos transformar cada publicação esquecida em uma suposta “leitura obrigatória”.
Mas porque conhecer a história da mídia muda nossa percepção sobre aquilo que estamos lendo hoje.
Quando você encontra em Milt Gross soluções narrativas que parecem modernas, começa a questionar quantas vezes os quadrinhos realmente inventaram algo novo e quantas vezes simplesmente redescobriram ferramentas que já estavam disponíveis há décadas.
Quando encontra George Herriman ilustrando as histórias absurdas de uma barata poeta e uma gata que acredita ter sido Cleópatra, percebe que essa suposta vontade contemporânea de destruir fronteiras entre quadrinhos, ilustração e literatura talvez seja bem menos contemporânea do que imaginamos.
Esse é o espaço mais interessante que a Editora Atomu pode ocupar no mercado brasileiro.
Não apenas publicar quadrinhos.
Mas fazer arqueologia dos quadrinhos.
Resgatar obras estranhas, importantes, esquecidas ou simplesmente difíceis de classificar. Livros que talvez nunca ocupem as listas dos mais vendidos, mas que ajudam a preencher aquelas enormes lacunas na formação do leitor brasileiro.
Em um mercado cada vez mais obcecado pelo próximo lançamento, pela próxima edição de luxo e pela próxima obra que alguém decretará como “obrigatória”, talvez também seja saudável encontrar uma editora disposta a perguntar:
E aquilo que veio antes, você já leu? Com lançamentos como Archy & Mehitabel e Ele a Enganou, a Atomu passa a oferecer justamente essa oportunidade.
E, para quem gosta não apenas de ler quadrinhos, mas também de entender como chegamos aos quadrinhos que temos hoje, vale ficar de olho no que ela vai tirar da estante empoeirada da história a seguir.




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