
DOM MORDAZ: “NINGUÉM PEDIU MAIS UMA EDITORA”
A produção independente de histórias em quadrinhos exige criatividade, persistência e disposição para enfrentar as particularidades do mercado editorial brasileiro. Nesse cenário, a Dom Mordaz construiu uma trajetória própria, unindo produção autoral, experimentação artística e uma visão particular sobre os caminhos da publicação independente.
Criada pelos quadrinistas Djeison Hoerlle e Braian Malfatti, a Dom Mordaz nasceu da parceria entre dois artistas que decidiram transformar uma colaboração criativa em um projeto editorial. Desde então, a iniciativa vem publicando trabalhos próprios e de outros artistas, com uma identidade marcada pelo humor, pela provocação e pela experimentação narrativa.
O Yellow Talk publica uma entrevista originalmente concedida a outro veículo de comunicação, mas que nunca chegou a ser publicada. Após autorização expressa dos autores, recuperamos o material na íntegra, preservando todas as perguntas e respostas originais.
A conversa também estará presente no Mordazine, publicação que estará disponível durante o FIQ 2026. Djeison Hoerlle e Braian Malfatti, portanto, estarão no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, participando do encontro que reúne artistas, editoras e leitores de histórias em quadrinhos.
ENTREVISTA
Como nasceu a Dom Mordaz e em que momento vocês perceberam que queriam transformar a produção autoral em um projeto editorial próprio?
Eu e o Braian temos a mesma idade, moramos na mesma cidade, estudamos na mesma escola. Temos as mesmas aspirações e interesses artísticos muito próximos. Mesmo assim, não sabíamos da existência um do outro até 2021, quando o Guilherme Smee, um dos padrinhos do quadrinho gaúcho, comentou sobre esse outro quadrinista campobonense. Na hora, chamei o Braian no Instagram, marcamos um café e saímos de lá decididos a trabalhar juntos. Desse papo, saiu O Vigilante do Centro Histórico.
A marca Dom Mordaz veio depois, por pura vaidade: parecia meio embaraçoso não ter nada além do título e dos nossos nomes (até então desconhecidos) ornando as capas dos nossos lançamentos. Criamos o nome e o logo, esperando que, com sorte, nos ajudassem a ser identificados por um ou outro leitor mais atento.
Nessa altura, nos identificávamos como um selo e não como editora. Com o tempo, isso começou a mudar. Passamos a gostar do processo inteiro, e não somente da criação das obras. O Braian se especializou em letreiramento e diagramação enquanto eu fui virando o cara das planilhas, cronogramas e pedidos de orçamentos para as gráficas. Aprendemos a gostar não somente de criar, mas também de produzir.
Foi quando percebemos que já tínhamos acumulado experiências que poderiam fazer a diferença para quadrinistas no início da jornada, ainda neuróticos em relação às suas narrativas e traços, mas completamente alheios ao mercado, editoração e produção. Talvez pudéssemos fazer algo por esses caras. Algo que teríamos adorado que fizessem por nós, lá atrás.
Aí então a gente tinha dois caminhos: começar a vender curso ou virar editora. Obviamente escolhemos o que dá menos retorno. E o pior é que fizemos isso mergulhando de cabeça. De cara, anunciamos 10 títulos. Tem gente no mercado há anos que anuncia três. Talvez seja justamente por isso que estejam há anos. Mas quando se tem a palavra mordaz no nome, ser cauteloso assume um caráter de propaganda enganosa.
Não nos arrependemos. De certa forma, esse é nosso jeito de tratar as próprias feridas. Quando começamos, percebemos que nenhuma editora nos publicaria. Demorou até entendermos que o problema não era necessariamente nossa arte, o que certamente gera muitas incertezas em artistas em início de carreira. Com o tempo, entendemos que, no geral, as editoras brasileiras estão mais interessadas em publicar obras de quadrinhistas gringos - mesmo que esses quadrinhistas gringos sejam muito inferiores aos daqui - ou dos amigos dos editores. Nós nem de São Paulo somos e não tínhamos amigos na área. Aí resolvemos fazer a nossa própria editora. Desde então, todo mundo quer ser nosso amigo.
Ao contrário do modelo tradicional, não fazemos acordos em que 90% do valor de capa de cada venda fica com a gente e somente 10% com o autor. Em vez disso, dividimos a tiragem, para que tanto nós quanto os artistas possam ter seu próprio estoque para fazer suas vendas em feiras e eventos. Também evitamos livrarias e a Amazon. Livrarias à contragosto: a gente gosta de deixar nossos livros nelas, elas é que não gostam de nos avisar quando eles são vendidos. Muito menos pagar. Já a Amazon é por solidariedade às livrarias. Há quem diga que, por conta do monopólio, logo elas vão deixar de existir. Imagina se nos pagassem.
Como funciona o processo criativo entre vocês, desde a ideia inicial até o roteiro, desenho, edição e publicação das obras?
Somos duas pessoas criativas, mas que exercem sua criatividade de forma oposta: o Braian é extremamente organizado, já sabe no que vai trabalhar em cada dia da semana com pelo menos 7 dias de antecedência, e quantas horas vai dedicar a cada projeto. Faz tudo o que pode para manter a rotina, tanto que, se eu sentir saudade dele ao longo do dia e mandar um “oi posso passar aí hoje”, ele vai me responder três horas depois sugerindo outro dia em que meu afeto não vá atrapalhá-lo.
Já eu, opero no caos. Tenho 3 computadores e cada um deles tem pelo menos 11 abas abertas simultaneamente. Eu escrevo um parágrafo, respondo um email, troco uma fralda da minha filha, entro em uma reunião e em seguida, volto para a escrita, mas de uma cena completamente diferente da anterior. Embalo dois quadros em sequência, assisto a um trecho de um filme e então, minha mulher avisa que a Samanta se cagou de novo. Toda hora é produtiva, e, ao mesmo tempo, hora nenhuma é.
Apesar dos perfis antagônicos, existe muita sinergia entre nossos interesses criativos. Apreciamos humor, melancolia, rupturas com formas tradicionais e metalinguagem. Lemos bastante prosa e levamos o que fazemos a sério, mesmo que sempre fazendo graça. Por eu ser roteirista, acabo dando mais direcionamento quanto ao que vai ser produzido já que a minha etapa vem na frente. Depois, o Braian desenha, debatemos alguns pontos e no fim, eu costumo passar de 20 a 40 minutos por dia elogiando os designs que ele produz. Acho que eu sou a dentição. O Braian, a cartola elegante que estampa nosso logo.
Quais são hoje os principais desafios de produzir e publicar quadrinhos de forma independente no Brasil?
Fora produzir e publicar quadrinhos de forma independente no Brasil? Temos tido uma jornada bem sucedida dentro de nossa proposta, e com pouca margem para reclamações. Nosso maior algoz acredito ser o algoritmo. Nosso modelo opera de forma exclusivamente digital, o que nos faz depender principalmente do Instagram. O alcance em redes sociais não é mais uma coisa “orgânica” - na falta de uma palavra melhor - como na década passada. Hoje, tudo gira em torno de anúncios. Por um lado, é interessante o quanto fazer um reel demanda algum esforço criativo da nossa parte. Por outro, o ato de fazer um pix para o Zuckerberg é sempre um momento ingrato para qualquer artista.
Também tem os eventos, que são a melhor e a pior coisa. A começar pelo fato que o RS não tem muitas feiras. Tem, sim, bastante gente reclamando por não haver muitos eventos, mas pouca gente organizando essas feiras. E os que organizam normalmente dedicam bastante tempo a reclamar do fato de haver poucas pessoas ajudando e muitas pessoas reclamando. A gente prefere o caminho do meio: não reclamamos nem organizamos nada.
Na nossa primeira feira eu estava nervoso e por isso, desci alguns latões de Brahma. Era 09:00 da manhã, em Canoas, na CCRS. Decidi que iria me enturmar com os outros artistas, já que eu era um deles. Perguntei ebriamente para a menina do lado “tu gosta de diversão?”, no que ela deixou escapar um “nunca li” e virou o rosto.
Em Curitiba, na Bienal de Quadrinhos, uma menina folheou um exemplar do Vigilante, nos olhou fundo nos olhos e perguntou “tem desconto?”. Por incrível que pareça, foi a primeira vez que ouvimos isso, o que significa que não tínhamos resposta pronta. Respondi meio desajeitado que sim, podíamos dar dez reais de desconto. Ela largou a HQ, virou as costas e foi embora. O gibi custava R$ 30,00.
E tem também uma questão estrutural desse tipo de feira: as pessoas vendem livros lá. Ter uma editora costuma ser um forte indício de que o apreço por esses objetos já chegou ao grau de patologia. Mesmo conseguindo vender bem, nosso dinheiro acaba virando uma espécie de cashback. É como jogar um carnívoro em um açougue. Um monte de carnívoros, não só a gente. Tem eventos que, desconfio, o PIB consista em, no máximo, uns dois mil reais que ficam pingando de conta em conta e que, se tivermos muita sorte, levamos uma fatia para casa.
O que vocês procuram construir como identidade da Dom Mordaz e que tipo de história ou experiência desejam entregar ao leitor?
Vivemos hoje um período fortemente marcado pela dicotomia, especialmente a política. Essa perspectiva nos incomoda porque parece dispensar o pensamento crítico e a tridimensionalidade dos indivíduos. O que se vê são muitas obras reproduzindo discursos visando aprovação de um ou outro lado. E eu não falo apenas de conservadores, até porque, no geral, eles pouco produzem. Existe muita arte preguiçosa que usa pautas sociais como bengala para validação.
No nosso entendimento, o papel da arte não é validar as ideias do artista, mas fazer o leitor questionar as dele. Fazemos isso olhando não somente para conteúdo, mas também para forma. Experimentações como a vista em Éramos dois pela manhã, do Braian, evidenciam isso.
E apesar de cronicamente frustrados com o capitalismo, nunca usamos isso como desculpa para entregar livros sem qualidade gráfica e editorial. Nosso protesto não é material, mas financeiro: a gente não diminui a qualidade, e sim os preços. Isso provavelmente explica a frustração que citei antes.
No fim, gostamos de pensar que entregamos livros baratos, materialmente agradáveis, mas moralmente incômodos.
Quais projetos, lançamentos ou próximos passos da Dom Mordaz vocês podem adiantar neste momento?
Recentemente terminamos a pré-venda da continuação do nosso “best seller”, O Vigilante do Centro Histórico - Vol 2, que ainda está em fase de produção. Tivemos que interromper essa HQ porque o FIQ tá vindo aí e com ele, o compromisso de aprontar três lançamentos que nos comprometemos a fazer lá.
Dois deles já estão em pré-venda: Diário de Quadrinista - Vol. 1, que reúne os diários do Braian ao longo do ano de 2025 e Qualquer Silva, uma maçaroca experimental que espelha o psicológico da protagonista, vivendo um relacionamento abusivo, de autoria da Tietbo. A pré-venda vai até metade de novembro, mas a gente vai imprimir ainda em outubro, garantindo esses títulos na nossa vendinha em BH. A campanha pode ser acessada clicando aqui.
Além disso, Praia das Lamentações estreia em pré-venda no mês de dezembro, mas já deve chegar impressa ao FIQ, que ocorre no começo de novembro. Por essa razão, provavelmente pré-venda não seja a expressão correta. Desorganização talvez seja mais coerente.
E, em paralelo a isso tudo, estamos organizando nosso quarto ciclo de publicações. Muitos autores promissores têm nos contatado, o que é motivo de felicidade e frustração - se déssemos conta de publicar todos, ou se fossem ruins, estaríamos numa posição mais confortável. Ainda é cedo para falar do que vem por aí, mas uma coisa é certa: a gente vai anunciar menos coisa. Não aguentamos mais trabalhar. Dá trabalho demais.
Apesar disso, encorajamos o contato. Nossa caixa de entrada está sempre aberta, bem como nossas DMs. Na pior das hipóteses, vem um feedback mordaz, mas dificilmente um vácuo.
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Djeison Hoerlle e Braian Malfatti
Dom Mordaz - Quadrinhos independentes




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