BLUES BROTHERS - A Fuga de Joliet Jake
Uma continuação que entende o passado, mas não vive apenas dele.

Ler um quadrinho derivado de um filme de sucesso talvez seja uma das tarefas mais difíceis para quem gosta de cinema e da nona arte. Explico o motivo: é praticamente impossível não estabelecer comparações entre as duas mídias. Agora, imagine revisitar uma história que marcou sua infância, que fez parte de uma época da vida à qual você guarda um carinho especial. Não é uma tarefa das mais simples, principalmente quando a memória insiste em tornar tudo um pouco melhor do que realmente foi.
Ler Blues Brothers despertou justamente esse sentimento. Aquela nostalgia de um tempo em que as maiores preocupações eram ir à escola, assistir à Sessão da Tarde e brincar com os amigos. Revisitar essas lembranças é sempre uma experiência curiosa, principalmente porque vivemos em uma época que transformou a nostalgia em produto e o famoso "no meu tempo é que era bom" em uma espécie de verdade absoluta. E talvez seja justamente aí que esteja o maior perigo: esperar que uma nova história reproduza exatamente aquilo que sentimos décadas atrás.
Mas, deixando um pouco a nostalgia de lado, vamos ao que interessa.
Blues Brothers apresenta uma continuação que foi muito além das minhas expectativas. Não por ser uma obra-prima ou por reinventar os quadrinhos, mas justamente por compreender o que tornou o filme tão especial sem depender exclusivamente disso. A HQ bebe diretamente da fonte original, resgata seus elementos mais marcantes e, ainda assim, consegue construir uma identidade própria.

A história se passa em 1997, quase duas décadas após os acontecimentos do filme. A polícia de Chicago está novamente atrás de Jake Blues, que teria escapado misteriosamente da prisão. No meio dessa confusão, conhecemos Robert, um detetive em ascensão que acaba envolvido em uma investigação muito mais complicada do que poderia imaginar. Com a participação de Elwood Blues e do jovem Wolfie, ligado ao mesmo orfanato que acolheu os irmãos, a trama mergulha em novos mistérios e acontecimentos do passado da dupla.
E é justamente nessa mistura entre passado e presente que o quadrinho encontra sua maior qualidade. Todos os elementos que fizeram do filme um clássico estão aqui: a música, o humor absurdo, as situações completamente improváveis e, claro, aquela dinâmica entre personagens que aparentemente não combinam, mas que funciona perfeitamente dentro de um bom buddy movie.
O mais interessante, porém, é perceber que a HQ não está preocupada apenas em reproduzir o que já conhecemos. Ela revisita o passado olhando para a frente, respeitando aquilo que veio antes, mas entendendo que uma continuação precisa oferecer algo além de lembranças. E isso, sem dúvida, foi o que mais me agradou durante a leitura. É claro que boa parte dos acontecimentos está diretamente ligada ao filme. Existem referências, homenagens e situações que certamente vão arrancar um sorriso de quem conhece a história original. Mas isso está longe de ser um problema. Afinal, referências só se tornam um incômodo quando substituem a narrativa, e não quando ajudam a desenvolvê-la.
Outro ponto que merece destaque é a maneira como o quadrinho abraça o lado mais fanfarrão de Blues Brothers. A maluquice, o exagero e as situações absurdas ganham ainda mais liberdade nas páginas da HQ. Se no cinema algumas dessas ideias dependiam das limitações da produção, nos quadrinhos elas podem ser exploradas sem grandes amarras. E a obra aproveita muito bem essa possibilidade, preservando aquele espírito de diversão e caos que sempre acompanhou os irmãos Blues.
No fim das contas, Blues Brothers é uma HQ divertidíssima, que entende a importância de sua origem sem se tornar prisioneira dela. É uma leitura que conversa diretamente com os fãs do filme, mas que também oferece uma boa aventura para quem simplesmente procura uma história descompromissada, cheia de humor, música e personagens improváveis. Talvez quem esteja conhecendo os irmãos Blues pela primeira vez não compreenda todas as referências, mas certamente encontrará motivos para querer descobrir mais sobre esses personagens e entender por que se tornaram um fenômeno que marcou uma geração.
E, para mim, essa é a maior virtude da HQ: ela não tenta provar que o passado era melhor. Apenas nos lembra por que ele foi tão divertido, enquanto mostra que ainda existem boas histórias para contar.
Detalhes do Quadrinho:
Título: BLUES BROTHERS - A Fuga de Joliet Jake
Roteiro: Luke Pisano; Stella Aykroyd; James Werner
Arte: Felipe Sobreiro
Cores: Felipe Sobreiro e Gab Contreras
Tradução e Adaptação: Carol Pimentel
Diagramação e Letras: Guilherme Baldin
Edição: Fernando Pintos Borges
Formato: Capa Dura - 17cm x 26cm
Interior: 128 páginas, colorido, papel couché fosco
Extras: Prefácio de Dan Aykroyd; Entrevista com Autores
ISBN: 978-65-988569-4-6




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