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Incidente em Antares e as verdades que o Brasil insiste em enterrar

Foto do escritor: Ronaldo Gillet
Ronaldo Gillet
há 11 minutos
10 min de leitura

E se os mortos voltassem para a cidade onde viveram e resolvessem contar tudo o que sabem sobre os vivos? A premissa de 'Incidente em Antares' parece ter sido catapultada das páginas de uma história de horror, mas o que Erico Verissimo fez com seu texto foi transformar o sobrenatural em instrumento de investigação política. Os cadáveres que se recusam a permanecer enterrados expõem as contradições de uma sociedade amalgamada ao silêncio para preservar suas hierarquias. Mais de cinco décadas depois da publicação do romance original, a adaptação para os quadrinhos, com roteiro de Rafael Scavone, arte de Olavo Costa e cores de Mariane Gusmão, recupera a força dessa sátira e permite que uma nova geração de leitores entre em contato com uma das obras mais contundentes da literatura brasileira.

Na fictícia Antares, localizada no sul do Brasil, uma greve geral paralisa os serviços da cidade, inclusive o trabalho dos coveiros. Sete pessoas morrem e, diante da impossibilidade de serem sepultadas, retornam à vida para reivindicar o direito ao enterro. O acontecimento rompe a rotina dos moradores e cria uma situação na qual segredos, abusos e conveniências sociais passam a ser discutidos publicamente. O ponto decisivo está na escolha dos protagonistas desse julgamento. São os mortos que interrogam os vivos, invertendo a lógica de uma sociedade na qual o prestígio econômico, a influência política e a autoridade institucional frequentemente determinam quem pode falar e quem deve permanecer calado.

O absurdo é o caminho escolhido por Verissimo para chegar a verdades bastante concretas. No artigo "O jogo do real e do irreal em Incidentes em Antares" publicado na revista Diadorim, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Alcmeno Bastos (2008) examina a relação entre o real e o irreal no romance e a maneira como o elemento fantástico permite parodiar a história. A inversão promovida pelos mortos transforma a narrativa em uma espécie de julgamento público da sociedade. A fantasia cumpre, portanto, uma função política, onde aquilo que seria impossível na vida cotidiana torna visível o que a normalidade procura esconder.


Para compreender a dimensão dessa crítica, é preciso voltar a 1971, ano de publicação do romance. O Brasil vivia o governo do general Emílio Garrastazu Médici, durante uma das fases mais repressivas da ditadura militar instaurada após o golpe de 1964. A censura, a perseguição a opositores, a restrição das liberdades políticas e a prática de tortura por agentes do Estado compunham aquele cenário. O Ato Institucional nº 5 (AI-5), decretado em dezembro de 1968, havia ampliado os instrumentos autoritários do regime e aprofundado a repressão.

Nesse contexto, Verissimo constrói uma crítica por meio da alegoria, da ironia e do fantástico. Em vez de reproduzir diretamente os acontecimentos políticos de seu tempo, o escritor cria uma cidade imaginária na qual as estruturas de poder podem ser expostas sem os filtros que normalmente protegem seus representantes. Antares é atravessada por práticas como o coronelismo, o patriarcalismo, a violência institucional e a submissão dos interesses coletivos às conveniências das elites. Ao deslocar essas contradições para o terreno do absurdo, Verissimo encontra uma maneira de questionar a ordem estabelecida e revelar os mecanismos que sustentam o autoritarismo.

Há, ainda, uma ironia especialmente significativa na maneira como a história termina. Depois de provocar uma ruptura na vida da cidade, os mortos deixam de ocupar o centro das atenções, e Antares encontra meios de recuperar sua aparente normalidade. Essa reconstrução da rotina permite uma interpretação inquietante sobre a capacidade de uma sociedade de absorver crises e neutralizar revelações - premissa que pode ser tão poderosa quanto os mecanismos utilizados para impedir que elas venham à tona. A verdade se torna pública, os responsáveis são expostos e as contradições ficam evidentes, mas nada disso assegura uma transformação efetiva. O poder encontra maneiras de reorganizar o discurso, recuperar sua legitimidade e seguir adiante. É nesse território de ambiguidade que a sátira do autor ganha uma dimensão ainda mais profunda, trazendo à tona uma sociedade que pode conhecer seus próprios problemas e continuar funcionando segundo as mesmas regras que os produziram.


Vale lembrar que Antares, além de uma cidade que não existe, também é uma representação literária de estruturas históricas brasileiras nas quais a autoridade política, o poder econômico e a influência social se conectam quase como num ritual autofágico. A atemporalidade do romance começa na percepção de que o autoritarismo se manifesta nas relações cotidianas, nas instituições que protegem determinados grupos, na naturalização da violência e nas tentativas de transformar denúncias em acontecimentos passageiros.

A força política de Incidente em Antares está também na escolha de seus personagens. Os sete mortos formam um retrato social que atravessa diferentes classes, profissões, crenças e experiências de exclusão. Dona Quitéria Campolargo representa a riqueza e a posição social de uma elite acostumada a exercer influência. Cícero Branco, advogado ligado aos interesses poderosos da cidade, conhece os bastidores que sustentam a ordem local. Barcelona, sapateiro anarquista, oferece uma perspectiva crítica sobre as relações sociais. João Paz, vítima da violência policial, introduz a discussão sobre tortura, repressão e fabricação de versões oficiais. Erotildes, marginalizada e desamparada, expõe a desigualdade no acesso à dignidade. Menandro Olinda e Pudim de Cachaça completam esse conjunto de personagens, cada qual com suas contradições e conflitos.

O recurso narrativo é engenhoso porque os mortos não constituem um grupo homogêneo. Eles também possuem preconceitos, interesses, ressentimentos e contradições. A condição de cadáver, além de não transformar ninguém automaticamente em exemplo de virtude, acaba por modificar a relação dos personagens com as consequências sociais de suas revelações. Cabe dizer também que, analisando a utilização da alegoria e do fantástico como recursos para discutir o autoritarismo na obra, fica mais palatável compreender como a narrativa ultrapassa o relato de um acontecimento sobrenatural para examinar as relações entre os indivíduos e as estruturas que condicionam suas vidas.

Essa perspectiva fica particularmente evidente na história de João Paz. A violência sofrida pelo personagem e a tentativa de apresentar uma versão oficial para sua morte expõem a problemática de que, quando as instituições responsáveis por proteger a população passam a controlar ou distorcer a verdade, a própria possibilidade de justiça é diluída. Erotildes, por sua vez, permite observar a desigualdade para além das disputas entre grupos políticos, com sua trajetória apontando para uma sociedade na qual a dignidade humana pode ser condicionada pela posição social e pelo interesse daqueles que detêm recursos e influência.

A morte reúne essas experiências, mas não apaga as diferenças que as produziram. Mesmo diante do sobrenatural, Antares continua sendo uma sociedade estratificada e moribunda, com a permanência de suas hierarquias funcionando como barreiras que impedem a narrativa de se transformar em uma fantasia de redenção. Os mortos orbitam a vida dos vivos, revelam segredos e desafiam os poderosos, mas o conflito central continua sendo o modo como uma comunidade reage à verdade quando ela ameaça seus interesses.

É nesse ponto que a adaptação de 2025 merece atenção própria, afinal, adaptar uma obra literária para os quadrinhos exige muito mais do que converter parágrafos em imagens. A linguagem sequencial possui recursos específicos, como enquadramento, composição, ritmo entre quadros, expressões corporais, cores e elipses narrativas. Por isso, a equipe responsável pelo quadrinho enfrentou um desafio particular, já que o romance de Verissimo apresenta uma construção histórica e social extensa, enquanto o formato da adaptação exige escolhas assertivas e condensações.


A OBRA TAMBÉM FOI TRANSFORMADA EM SÉRIE DE TV
A OBRA TAMBÉM FOI TRANSFORMADA EM SÉRIE DE TV

A HQ concentra-se na parte do romance dedicada ao incidente propriamente dito, privilegiando o retorno dos mortos e o confronto com a sociedade que eles perturbam. Essa escolha favorece o ritmo e a intensidade da narrativa, mas também reduz parte da contextualização histórica e política presente no livro original. O resultado precisa ser entendido como mais uma interpretação da obra de Verissimo - assim como já ocorreu no audiovisual -, e não como sua substituição integral.

O trabalho de Rafael Scavone no roteiro envolveu selecionar, reorganizar e traduzir os acontecimentos para a linguagem dos quadrinhos. Com essa estrutura narrativa mais concentrada, o leitor é conduzido ao embate entre a verdade e as convenções sociais. Olavo Costa, responsável pela arte, deu forma visual tanto ao caráter extraordinário dos cadáveres quanto à familiaridade de uma sociedade perfeitamente reconhecível. Já Mariane Gusmão, nas cores, participou da construção das atmosferas e do equilíbrio entre o humor, o grotesco e a crítica política.

A adaptação também precisou lidar com o papel do humor, afinal de contas, a sátira é um dos mecanismos mais eficientes da obra, pois, com Verissimo o expondo inúmeras micro relações de poder supracitadas ao ridículo. Os personagens que controlam a cidade perdem o domínio da situação quando aqueles que deveriam permanecer calados passam a falar. A comédia desmonta a imagem de respeitabilidade das elites e revela que o prestígio social depende, em parte, de uma encenação coletiva.

Vale dizer também que, nesse sentido, o riso pode até deslegitimar o poder, mas também pode fazer com que a denúncia seja consumida como espetáculo passageiro. A pessoa ri da revelação, comenta o escândalo e retorna à rotina sem necessariamente questionar as estruturas que permitiram o problema. A própria narrativa explora o fato de que tornar uma verdade pública não garante que ela produza transformação. Essa questão torna Incidente em Antares especialmente relevante para o Brasil contemporâneo, permitindo que sejam estabelecidas conexões com temas como a memória da ditadura, a responsabilização por abusos, a desinformação, a desigualdade diante das instituições e as tentativas de desacreditar denúncias incômodas. O cenário dos dias atuais possui condições políticas e jurídicas diferentes dos tempos ditatoriais, mas a comparação com os chamados ‘anos de chumbo’ está nos mecanismos de poder que podem persistir ou reaparecer em diferentes contextos.

A VERSÃO MAIS RECENTE EM LIVRO DE INCIDENTE EM ANTARES
A VERSÃO MAIS RECENTE EM LIVRO DE INCIDENTE EM ANTARES

A memória histórica é um desses mecanismos, afinal, a violência de Estado é minimizada quando suas vítimas são tratadas como responsáveis pelo próprio sofrimento ou quando a documentação histórica é substituída por versões convenientes, levando a sociedade a perder instrumentos que a permitam reconhecer os riscos do autoritarismo. Em Antares, a normalidade é reconstruída depois da perturbação provocada pelos mortos, com o cotidiano voltando a funcionar, ainda que a restauração da rotina não signifique que as injustiças tenham sido reparadas.

Essa lógica também permite refletir sobre o ambiente atual de circulação de informações. A multiplicação de denúncias, imagens, declarações e controvérsias não garante, por si só, uma sociedade mais bem informada. A informação pode ser ignorada, descontextualizada, distorcida ou substituída por novas polêmicas. As plataformas de comunicação contemporâneas ampliaram a velocidade e o alcance da circulação de discursos, mas a abundância de mensagens não elimina a disputa pela interpretação dos fatos. O problema central continua sendo quem consegue estabelecer uma versão dos acontecimentos como verdade socialmente aceita.

Em Antares, os mortos quebram o monopólio da narrativa, trazendo para o espaço público experiências que haviam sido mantidas à margem. O paralelo com o Brasil contemporâneo está nessa disputa. A preservação da democracia depende de instituições capazes de investigar, de uma imprensa livre, de acesso à informação e de uma sociedade disposta a examinar criticamente as versões que recebe. A literatura não fornece respostas automáticas para os problemas políticos, mas pode tornar visíveis os mecanismos pelos quais uma sociedade aprende a conviver com a injustiça.

Há outro aspecto que torna a obra uma verdadeira joia, afinal, é uníssono dizer que os mortos da obra não são recebidos da mesma maneira pelos vivos. Alguns possuem recursos para proteger sua reputação; outros já foram marginalizados em vida e continuam sujeitos ao julgamento social mesmo depois da morte. A diferença entre essas experiências revela uma hierarquia que vai além da riqueza material.

A trajetória de Erotildes, por exemplo, permite refletir sobre o modo como a dignidade pode ser condicionada pela posição social. A personagem evidencia uma sociedade na qual determinadas pessoas são mais facilmente descartadas, enquanto outras conseguem preservar sua influência mesmo diante de comportamentos condenáveis. Essa discussão dialoga com a desigualdade brasileira sem precisar transformar a graphic novel em uma reportagem sobre o presente. É por isso que a força da ficção está no poder de representar relações sociais reconhecíveis em diferentes épocas - sem a necessidade de cada personagem corresponder diretamente a uma pessoa real.

Também é importante observar que o romance não oferece uma comunidade perfeitamente dividida entre opressores e oprimidos. As contradições individuais atravessam os grupos, e o poder se manifesta por meio de uma rede de relações que inclui interesses econômicos, convenções morais, preconceitos e instituições. Esse olhar impede que a crítica social se reduza à denúncia de indivíduos específicos e essa problemática envolve as condições permissivas para que determinados abusos se repitam e que suas consequências sejam distribuídas de maneira desigual.

Talvez a questão mais incômoda de Incidente em Antares seja a distância entre tornar a verdade conhecida e transformar a realidade. O retorno dos mortos rompe o silêncio, expõe segredos e obriga a cidade a encarar suas próprias contradições. Essa reflexão também alcança o jornalismo, a preservação da memória e a participação cidadã. Uma denúncia exige apuração, documentação e acompanhamento. A indignação pode abrir caminho para mudanças, mas a responsabilização depende de esforços que ultrapassam o escândalo momentâneo. O mesmo vale para a memória histórica, quando conhecer os abusos de um regime exige também preservar documentos, ouvir vítimas, investigar responsabilidades e transmitir essa história às novas gerações.

A graphic novel de Rafael Scavone, Olavo Costa e Mariane Gusmão tem o mérito de recolocar essa discussão em circulação por meio de uma linguagem artística própria. O formato dos quadrinhos oferece uma experiência diferente, articulando texto, imagem, composição e ritmo para aproximar novos leitores de uma obra fundamental da literatura brasileira. A adaptação também abre uma oportunidade para discutir como os clássicos sobrevivem. Sua permanência não depende de serem tratados como peças intocáveis, mas da possibilidade de estabelecer novas relações com leitores, linguagens e contextos históricos.

Incidente em Antares permanece relevante porque compreende que o poder não depende apenas da capacidade de impor decisões, mas também da possibilidade de controlar narrativas, administrar reputações e determinar quais verdades terão consequências. Erico Verissimo construiu uma sátira na qual os mortos conquistam a liberdade que lhes faltava em vida. A premissa fantástica permite expor a fragilidade das convenções sociais e a dificuldade de uma comunidade em reconhecer suas próprias contradições. Mais de cinco décadas depois da publicação original, a adaptação em quadrinhos recupera esse conflito e o apresenta a uma nova geração de leitores de maneira quase irretocável.

Incidente em Antares

Ficha técnica

Título: Incidente em Antares Obra original: Erico Verissimo Roteiro da adaptação: Rafael Scavone Arte: Olavo Costa Cores: Mariane Gusmão Editora: Companhia das Letras

Selo: Quadrinhos na Cia.

Ano de publicação: 2025 Número de páginas: 184Formato: brochura ISBN: 978-65-84953-64-2 Gênero: drama, sátira política, realismo fantástico País de origem: Brasil Gostou do nosso conteúdo? Que tal apoiar o Yellow Talk? O Yellow também é podcast e canal no YouTube, e seu apoio pode ajudar o nosso trabalho a crescer cada vez mais. A partir de R$2,00 você já vai estar contribuindo para manter nosso site no ar. Para dar o seu apoio, basta clicar AQUI.


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