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Devoradores de Estrelas: um filme feito para durar

  • Foto do escritor: Ronaldo Gillet
    Ronaldo Gillet
  • há 11 minutos
  • 6 min de leitura

A vida tem me provado, dia após dia, que o tempo costuma ser um crítico muito mais justo do que o entusiasmo. A história do cinema está repleta de obras que pareciam indispensáveis no momento de seu lançamento, mas que hoje sobrevivem apenas como retratos de um determinado contexto cultural. Outras seguem o caminho inverso. Encontram seu verdadeiro lugar quando a poeira dos debates é dissipada e as expectativas deixam de interferir na experiência, restando apenas aquilo que nenhuma campanha de divulgação é capaz de fabricar: a permanência. Foi assim que encontrei Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary). Assisti ao filme (que faturou cerca de U$ 650 milhões em bilheteria pelo Mundo) no serviço de streaming MGM+, quando o entusiasmo coletivo (o famoso hype) já havia seguido adiante.


A boa ficção científica jamais tratou do futuro. Em obras como 2001: Uma Odisseia no Espaço e A Chegada, o gênero utilizou o desconhecido como instrumento para investigar aquilo que permanece irremediavelmente humano. O espaço nunca foi apenas uma fronteira física, mas um laboratório filosófico onde nossas certezas são colocadas à prova. É essa tradição que os diretores Phil Lord e Christopher Miller parecem compreender ao adaptar o romance de Andy Weir, com roteiro de Drew Goddard. Em vez de transformar Devoradores de Estrelas em um espetáculo sustentado apenas por sua escala cósmica, o filme preserva a essência da obra original e entende que toda grande viagem interestelar começa, inevitavelmente, dentro de quem a realiza.


A ameaça representada pelos chamados ‘astrofágicos’, termo que dialoga diretamente com o título brasileiro escolhido para o filme, confere à narrativa uma escala verdadeiramente cósmica. Poucas hipóteses são mais perturbadoras do que imaginar que o próprio Sol possa deixar de sustentar a vida. Reduzir a obra a essa premissa, porém, seria ignorar sua verdadeira ambição. Os astrofágicos são menos importantes pelo risco que representam do que pelas perguntas que provocam. Toda grande descoberta científica produz um deslocamento intelectual, obrigando a humanidade a abandonar explicações confortáveis para aceitar que o universo continua sendo muito maior do que qualquer teoria capaz de descrevê-lo.


Corroborando tudo isso, Ryland Grace, interpretado por Ryan Gosling, é um protagonista singular. Hollywood acostumou o espectador à figura do cientista brilhante que transforma inteligência em vaidade, mas Grace pertence a outra linhagem. Antes de ser pesquisador, ele é professor. Existe uma diferença fundamental entre essas duas condições: o pesquisador amplia as fronteiras do conhecimento; já o professor impede que elas se fechem sobre si mesmas. Sua primeira reação diante de um problema não consiste em demonstrar superioridade, mas em compreender, experimentar, desenhar e explicar nos mínimos detalhes. Há, entretanto, um paradoxo que define o personagem. Sua expertise convive com uma permanente sensação de inadequação.

Grace jamais parece convencido da própria competência, embora sua inteligência seja evidente para todos ao seu redor, menos para ele próprio. Está aí uma das representações mais honestas da chamada síndrome do impostor. É duro - e eu falo isso por experiência própria - viver cerceado pela incapacidade de reconhecer o próprio mérito, mesmo quando todas as evidências apontam na direção contrária. Ao mesmo tempo, o personagem demonstra uma forma muito particular de se relacionar com o mundo. Seu raciocínio é profundamente associativo, sua curiosidade beira a obsessão e sua criatividade transforma objetos, experiências e ideias aparentemente desconexas em soluções improváveis. As interações sociais nem sempre seguem um caminho intuitivo, como se sua mente estivesse constantemente mais interessada em compreender o funcionamento das coisas do que as convenções que organizam as pessoas. O filme jamais procura nomear essas características, limitando-se a observá-las com respeito e lembrando que nem toda singularidade precisa ser rotulada para ser compreendida.


Foi principalmente nesse ponto que a narrativa encontrou sua ressonância mais profunda comigo. Não foi pela escala da missão quase inalcançável, mas pela familiaridade daquele desconforto silencioso de acreditar, mesmo diante das evidências, que outra pessoa seria mais capaz de ocupar o próprio lugar. A viagem de Ryland é, sobretudo, uma lenta travessia em direção à aceitação de si mesmo. Os romanos utilizavam a palavra ‘humanitas’, cujo significado ultrapassa a simples ideia de "humanidade". Ela designava a capacidade de cultivar conhecimento sem abandonar a empatia, de reconhecer que aprender e conviver pertencem à mesma experiência. Poucas palavras descrevem melhor o espírito deste filme.


Isso se torna ainda mais evidente quando a narrativa nos apresenta a Rocky. Seria um equívoco enxergar esse encontro apenas como mais uma aproximação entre espécies distintas, tradição que acompanha a ficção científica desde os seus primórdios. O que acontece entre Ryland e Rocky pertence a uma categoria muito mais rara. Eles precisam inventar uma linguagem antes mesmo de estabelecer confiança. Nenhum compartilha os sons, a fisiologia ou os códigos cognitivos do outro e, ainda assim, ambos persistem na tentativa de compreender. Entre eles nasce um vínculo verdadeiro. A comunicação deixa de ser consequência do encontro para se tornar sua própria condição de existência.


Ao defender que a linguagem constitui uma capacidade criativa inerente à espécie humana, Noam Chomsky ajudou a deslocar o debate para além do vocabulário e da gramática. Antes da linguagem existe o desejo de comunicar. Devoradores de Estrelas sugere exatamente que a comunicação não nasce da semelhança entre interlocutores, mas da disposição de ambos em reduzir a distância que os separa. Em um tempo histórico marcado pela incapacidade crescente de escutar quem pensa diferente, essa talvez seja uma das hipóteses mais otimistas apresentadas pelo cinema contemporâneo.


Ainda falando sobre a narrativa, essa mesma delicadeza atravessa as relações construídas na Terra. Eva Stratt, personagem interpretada por Sandra Hüller, jamais é reduzida ao estereótipo da líder inflexível. Sob sua aparente objetividade e pragmatismo quase cristalizado existe alguém igualmente habituada à solidão das grandes responsabilidades. Em um dos momentos mais intimistas do filme, quando Eva canta Sign of the Times, de Harry Styles, a narrativa suspende por alguns instantes a urgência científica para recordar que um grupo seleto de gênios reunidos em um navio é, acima de tudo, um encontro entre pessoas. A escolha da canção não parece casual. Sua melancolia fala da necessidade de seguir adiante mesmo quando o futuro permanece indecifrável. É um instante que lembra a delicadeza emocional de Contato Imediatos de Terceiro Grau e os silêncios contemplativos de Interestelar, obras que compreendem que a ciência só ganha sentido quando permanece inseparável da condição humana.


Há ainda outro aspecto frequentemente negligenciado. Toda missão espacial implica uma ruptura definitiva, não apenas física, mas também cognitiva, com aquilo que entendemos por cotidiano. Ryland abandona, além da Terra, inúmeros (ainda que complexos) vínculos, afetos e a possibilidade de reencontrar aqueles que deram sentido à sua existência. A solidão do espaço, nesse contexto, além da inevitável ausência de gravidade, decorre da consciência de que algumas despedidas se concretizam antes mesmo de serem pronunciadas. O filme compreende esse silêncio e resiste à tentação de transformá-lo em melodrama. Basta um olhar para que a dimensão dessa perda se evidencie.


Talvez o aspecto mais bonito da jornada de Ryland seja perceber que sua missão jamais depende apenas de inteligência. O conhecimento o leva até determinado ponto. O restante exige confiança para ensinar, aprender, reconhecer limites e, sobretudo, para admitir que algumas respostas só podem ser construídas em conjunto. A verdadeira vitória do protagonista está na capacidade de estabelecer vínculos onde tudo parecia apontar para o isolamento.


Lembrei inúmeras vezes de uma observação de Carl Sagan: "Somos uma forma de o cosmos conhecer a si mesmo." E talvez seja essa a razão pela qual Devoradores de Estrelas permaneça tão vivo depois que o filme termina. Seus efeitos visuais inevitavelmente vão envelhecer, algumas especulações científicas poderão ser revistas, mas o que dificilmente vai perder força é a confiança na curiosidade como um gesto profundamente humano. Não obstante, o conhecimento aparece na obra como um exercício de generosidade - o que é bem raro.


Entre todos os filmes que assisti no primeiro semestre de 2026, nenhum me marcou tanto quanto Devoradores de Estrelas. Não acredito que seja por apresentar as respostas mais sofisticadas sobre o universo, mas porque formula algumas das perguntas mais honestas sobre nossa capacidade de conviver, aprender e confiar. Antecipar o futuro sempre foi uma das funções da ficção científica, certo? Contudo, é muito mais difícil compreender que o verdadeiro desafio consiste em imaginar como continuaremos sendo humanos quando estivermos cercados somente pelas estrelas.


Isso tudo faz do filme uma narrativa destinada a envelhecer bem. Enquanto alguns sucessos pertencem apenas ao lapso temporal do ano em que foram lançados, grandes filmes furam a bolha no sentido diacrônico. Existe uma expressão em latim que resume bem essa vocação: ad infinitum, "até o infinito", descrevendo aquilo que toda grande obra deseja alcançar. Devoradores de Estrelas pertence, sem dúvida, ao infinito e além.

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