Heated Rivalry: como uma série canadense de nicho e com baixo orçamento se tornou um fenômeno mundial
- Andrea Santos
- 25 de jan.
- 6 min de leitura

No fim de 2025, um fenômeno inesperado ocorreu no universo do entretenimento. Uma série feita no Canadá, para um streaming local, com orçamento baixo e atores praticamente desconhecidos como protagonistas, rapidamente angariou milhares de espectadores ao redor do mundo, mesmo sendo transmitida apenas no país de origem. A força do boca-a-boca fez a produção viralizar na internet, e logo várias plataformas de streaming passaram a anunciá-la em outros países, o que foi muito comemorado, ainda que muita gente já tenha assistido a ela por meios clandestinos. Mas essa não tem sido uma febre qualquer, daquelas que dão o que falar por algumas semanas, geram memes que são rapidamente esquecidos e morrem. Boa parte dessa multidão de fãs tem vivenciado algo que muitos estão comparando até a uma psicose em massa, um tipo de obsessão que gera sintomas como: assistir repetidamente à única temporada disponível, passar o dia pensando na história, dormir e acordar com os personagens na cabeça e ter dificuldade para retornar ao mundo real após embarcar nessa ficção. Esse é o surto provocado por Heated Rivalry, e aqui vamos discutir alguns dos fatores que contribuíram para essa loucura.
Primeiro, um panorama: Heated Rivalry é uma série de TV cuja primeira temporada, com seis episódios, adapta o livro homônimo escrito pela canadense Rachel Reid. Este, por sua vez, é o segundo da série de livros Game Changers, que traz histórias de romance entre jogadores de hóquei. Cada livro mostra a jornada de um casal diferente, exceto pelo próprio Heated Rivalry, que, até o momento, já tem uma continuação publicada (The Long Game) e outra confirmada para o segundo semestre de 2026 (Unrivaled).

A trama de Heated Rivalry se constrói em cima do tropo rivals to lovers (rivais/inimigos que se tornam amantes) e nos apresenta os jogadores Ilya Rozanov e Shane Hollander, capitães de times cuja rivalidade é antiga e fortíssima. Supostamente, eles se odeiam. A verdade, porém, é que desde o início de suas vidas profissionais os dois se encontram em segredo para sessões rápidas e ardentes de sexo casual. Alguns fatores complicam esse relacionamento enrolado: a homofobia é grande no meio do hóquei, e além disso, os colegas de time e fãs provavelmente não ficariam nada felizes em saber que seus principais jogadores na verdade gostam de se pegar. Pra piorar, os dois homens não conseguem conversar sobre seus sentimentos, e tentam de toda forma se convencer de que o que existe entre eles é algo passageiro e sem importância. Dessa forma, acompanhamos as idas e vindas do casal ao longo de anos, desde seu primeiro encontro até eles não conseguirem mais negar e sufocar o que sentem um pelo outro.

Um dos principais motivos para o sucesso da série é a fidelidade da adaptação em relação ao material original. O diretor Jacob Tierney não abriu mão de sua visão artística em nenhum momento, tendo recusado possibilidades de financiamento mais robusto e resolvido manter a produção no Canadá em prol da liberdade de filmar a obra que queria. O resultado disso são cenas e diálogos que seguem o livro praticamente linha por linha, palavra por palavra. Para quem já era fã dos livros, esse respeito significou muito, visto que muitas adaptações audiovisuais acabam desviando consideravelmente da fonte e causando descontentamento geral. As poucas mudanças feitas, como a exclusão ou inclusão de certas cenas ou alterações de características físicas de personagens, apenas contribuíram para a fluidez da narrativa, não afetando negativamente o resultado final.
O maior acerto de Tierney, pode-se alegar, foi na escolha do elenco. Ilya, jogador russo talentoso, falastrão e malquisto por boa parte da liga, é interpretado pelo americano Connor Storrie. Já o canadense Shane, bom-moço de personalidade mais reservada, é vivido nas telas pelo também canadense Hudson Williams. Acontece que a química entre eles é algo de outro mundo: explosiva, febril e feroz, e isso é perceptível antes mesmo de o primeiro beijo acontecer. É uma daquelas situações em que não há como imaginar outros atores nesses papéis, e após assistir à série, é basicamente impossível ler os livros e imaginar os personagens de outra maneira.

Claro que de nada valeria a química se ela não fosse sustentada por boas atuações, e felizmente, aqui eles também brilham. Williams interpreta o autista Shane (informação não revelada na série, mas confirmada pela autora) de forma contida, mas muito autêntica, demonstrando suas emoções principalmente através dos olhos, que ora brilham, ora se enchem de lágrimas exatamente nos momentos certos. Storrie, por sua vez, é um show à parte: quem assiste à série desprevenido tem certeza de que ele é de fato russo, ou pelo menos descendente, mas a verdade é que o texano começou a estudar a língua cerca de uma semana antes do início das gravações, que duraram pouco mais de um mês. A dedicação foi tamanha que ele entregou uma das cenas mais emocionantes da temporada, um monólogo em russo ao telefone capaz de enganar até nativos. Claro, boa parte do mérito também vai para Kate Yablunovsky, a preparadora de dialeto que trabalhou com Storrie.
Para além da questão da fidelidade, as escolhas de Tierney na direção não podiam ser mais acertadas. A história também é contada nas entrelinhas e de várias formas, por exemplo: através de elementos que se contrapõem, como escuridão X luz (a depender do momento em que a relação se encontra), rimas visuais, e uma trilha sonora muito bem escolhida. Destacam-se tanto as músicas originais de Peter Peter, que transmitem todas as emoções da descoberta do amor e do sexo no início da vida adulta, quanto o uso de canções certeiras em momentos decisivos. Os finais dos episódios 4 e 5, ao som de, respectivamente, All the things she said, de t.A.T.u., e I'll believe in anything, de Wolf Parade, são duas das cenas mais memoráveis da temporada, ainda que por motivos bem diferentes, e as músicas usadas se tornam parte integral e indissociável das cenas.
Mas, sem dúvida, o elemento mais comentado de Heated Rivalry são as cenas de sexo. Elas são abundantes desde os primeiros minutos, e não carregam nenhuma vergonha ou hesitação em mostrar dois homens transando. Tierney, que é abertamente gay, entrega cenas de tirar o fôlego, que vão desde o início curioso e exploratório dessa aventura proibida até os momentos românticos, em que o tesão se mistura aos sentimentos à flor da pele. E se engana quem compara a série a um soft porn gay: o sexo aqui não é gratuito ou barato. Ele funciona como fio condutor da construção da intimidade entre dois homens que querem se amar livremente, mas sentem que ainda não podem fazê-lo. Enquanto declarar abertamente o que sentem não é uma possibilidade, o sexo aparece a cada encontro furtivo nas ocasiões em que os dois times se enfrentam. Quando essa barreira é superada e o casal enfim começa a se entender no nível da comunicação verbal, surpresa: as cenas explícitas cessam, dando lugar a momentos de tensão sexual em público, ternura e leveza (o casto ato de entrelaçar os dedões na beira da praia nunca na história da humanidade teve tanto significado quanto no quinto episódio desta série).

Dado o teor da história, muita gente se surpreendeu ao descobrir que boa parte do público cativo de Heated Rivalry é composto por mulheres das mais variadas orientações sexuais. Na verdade, isso não é surpresa alguma, como bem sabem as fãs do gênero boys’ love/yaoi, que é amplamente consumido por mulheres no mundo inteiro. Pode-se alegar que as mulheres buscam tais obras para contemplar belos homens pelados se agarrando, e isso até é verdade, mas é apenas uma parte dela. O que Heated Rivalry oferece é algo muito maior: uma história de amor bem contada, com personagens tridimensionais e verossímeis, que possuem qualidades e defeitos, são vulneráveis e, em última análise, perfeitamente imperfeitos. Além disso, o amor entre dois homens se desenrola num patamar de igualdade que não existe nos relacionamentos heterossexuais. Assim, é possível encontrar na obra um escape para a misoginia que nos assombra dia após dia. É uma delícia apertar o play e simplesmente embarcar na história de dois caras que se respeitam mutuamente, sabem o que é consentimento e só se permitem ir até onde o outro está confortável. E é de partir o coração saber que essa é uma realidade que muitas de nós não encontramos no mundo real, por mais que tentemos.
A importância do sucesso de Heated Rivalry é imensa. Ele mostra que o público está, sim, preparado para obras que saem das caixinhas predeterminadas pelos streamings modernos, e que narrativas queer não só são bem aceitas como são desejadas. As pessoas estão cansadas de tramas com desdobramentos trágicos, em que os personagens LGBTQIAP+ morrem ou são forçados a se separar. Elas querem romances bonitos e sensíveis, bem produzidos, com personagens cativantes, histórias bem contadas e, por que não?, finais felizes. Vivemos tempos muito difíceis, em que o planeta está prestes a colapsar e tudo parece caminhar para o retrocesso. Heated Rivalry vai na contramão desses horrores, e oferece um universo de encanto, beleza, conforto e esperança por um mundo melhor, onde a masculinidade tóxica dá lugar a homens mais saudáveis e seguros de si, e onde ninguém precisa se esconder por ser quem é e por sentir o que sente. Enfim, um mundo onde todos merecem a luz do sol e um chalé aconchegante para passar o verão em boa companhia.
(Heated Rivalry: Rivalidade Ardente chega oficialmente ao Brasil em 13 de fevereiro pela HBO Max, com episódios novos a cada sexta-feira)




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