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YON, volume 1 - Camille Broutin transforma o fim do mundo em um estudo sobre aquilo que escolhemos ignorar

  • Foto do escritor: Ronaldo Gillet
    Ronaldo Gillet
  • há 1 minuto
  • 4 min de leitura

Há incontáveis obras de ficção científica que utilizam monstros para provocar medo, enquanto recorrem ao desconhecido para despertar fascínio. Em YON, a quadrinhista francesa Camille Broutin escolhe um caminho bem mais desconfortável, utilizando o inexplicável para investigar a extraordinária capacidade humana de transformar o absurdo em rotina. Seu primeiro trabalho solo, que está sendo publicado no Brasil pela Nemo, inaugura uma nova fase da editora no universo dos mangás, demonstrando que esse cartão de visitas dificilmente poderia ter encontrado uma obra mais instigante para abrir esse catálogo. Publicada originalmente na França pela Dargaud, a série vai ser concluída por aqui em quatro volumes, dos quais o primeiro funciona como uma espécie de introdução a um universo que desperta curiosidade a partir da compreensão do valor narrativo do silêncio.

Primeiro cabe dizer que Broutin é dona de uma escrita que confia no tempo, nos detalhes e na inteligência do leitor. A narrativa acompanha Margot, uma adolescente enviada para um internato isolado em pleno deserto, instituição destinada a jovens consideradas problemáticas por suas próprias famílias. E antes mesmo que o elemento fantástico ocupe o centro da narrativa, o ambiente já produz uma sensação constante de estranhamento. O internato parece existir à margem da sociedade, quase como um espaço destinado a esconder aquilo que a vida cotidiana insiste em não enfrentar. É com esse pano de fundo que um fenômeno vindo do céu rompe as expectativas de normalidade. Esferas brancas caem sobre a Terra e transformam o lugar em um território governado por regras que ninguém consegue, à primeira vista, compreender completamente.

Esse ponto de partida poderia facilmente conduzir a um contexto convencional de sobrevivência. Camille Broutin, porém avança sobre questões mais complexas. O verdadeiro conflito parece surgir da tentativa permanente de interpretar um mundo que deixou de obedecer às referências consideradas senso comum. A natureza nunca se preocupa em justificar seus próprios mecanismos. Ela apenas existe e isso basta.

Essa estrutura produz uma leitura que ultrapassa as barreiras do suspense. Conforme os capítulos avançam, as criaturas que caem do céu causam em quem lê uma impressão constante de que obedecem a uma espécie de cadeia alimentar, de equilíbrio ecológico ou mesmo de leis biológicas que escapam ao entendimento das personagens. Essa percepção faz com que o leitor comece a suspeitar que está diante de organismos inseridos em um ecossistema próprio, cuja lógica talvez seja tão legítima quanto a humana. O problema, a partir daí, perpassa pelo senso que cada um de nós construiu sobre compreender algo antes de agir.

Essa construção desperta inevitavelmente a reflexão de que o ser humano interpreta o mundo sempre a partir daquilo que lhe é familiar. YON parece propor justamente o contrário, já que somos obrigados a reconhecer a existência de algo que não pode ser reduzido às nossas categorias habituais, havendo um limite para o desejo humano de controlar, nomear e explicar todas as coisas. Camille Broutin transforma esse limite em uma espécie de combustível dramático.

Depois de atravessarmos (no mundo real) anos marcados por uma pandemia global, pelo avanço das mudanças climáticas, pelo crescimento do negacionismo científico e pela banalização diária de tragédias ambientais transmitidas ao-vivo, é quase impossível não estabelecer paralelos entre o mangá e o nosso próprio tempo. No filme ‘Não Olhe para Cima’ (Don't Look Up, de 2021, dirigido por Adam McKay e estrelado por um elenco de peso liderado por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence), a sátira foi utilizada para denunciar uma sociedade incapaz de reagir diante do desastre anunciado. YON percorre um caminho um pouco diferente e ao mesmo tempo similar, onde , pouco a pouco, personagens começam a organizar suas vidas em torno de um fenômeno absolutamente extraordinário. O medo continua presente, mas passa a dividir espaço com o ato quase que instintivo de seguir em frente.

Entre as observações mais perturbadoras da obra, percebemos que o ser humano possui uma impressionante habilidade para conviver com aquilo que ameaça sua própria existência. É aí que o impossível deixa de provocar espanto e se transforma tão somente em mais um elemento da paisagem. Albert Camus dissertou sobre o fato de o absurdo nascer do encontro entre a necessidade humana de encontrar sentido e um universo incapaz de oferecer respostas. Camille Broutin atualiza essa percepção ao sugerir que o verdadeiro perigo talvez não seja o fenômeno vindo do céu, mas a velocidade com que aprendemos a coexistir com ele.

Visualmente, Camille Broutin demonstra uma maturidade impressionante para uma autora em seu primeiro trabalho solo. Seus enquadramentos evitam exageros dramáticos e apostam numa certa economia narrativa. As expressões faciais de suas personagens carregam enorme peso emocional, enquanto o uso das hachuras ajuda a ampliar constantemente a sensação de isolamento e desconforto. Já os diálogos trazidos pela autora movimentam a trama e revelam gradualmente as fragilidades das personagens, ampliando a tensão psicológica do ambiente.

Em um período em que tantas histórias parecem preocupadas em apresentar reviravoltas a cada capítulo, YON prefere regar homeopaticamente uma série de perguntas que só serão respondidas no momento certo da colheita. Quem são exatamente aquelas entidades? O que representam aquelas esferas? Existe alguma forma de comunicação possível entre espécies tão diferentes? Quais critérios orientam seus comportamentos? O internato funciona apenas como cenário ou também representa uma metáfora sobre isolamento, exclusão e convivência forçada com aquilo que a sociedade prefere manter distante dos olhos?

São questionamentos que permanecem abertos ao final da leitura, e talvez esteja aí o maior mérito do trabalho de Camille Broutin. O primeiro volume desperta uma curiosidade genuína pelo desenrolar da história. Se os próximos três volumes mantiverem o mesmo equilíbrio entre suspense, construção de mundo e reflexão, Camille Broutin terá me ajudado, como leitor, a modificar a forma como passarei a olhar para aquilo que cair do céu daqui por diante e, principalmente, para tudo aquilo que enxergo como parte natural da paisagem.

YON – Volume 1


Autora: Camille Broutin


Tradução: Renata Silveira


Editora original: Dargaud (França)


Editora brasileira: Nemo


Formato: 15 x 21 cm


Acabamento: Capa cartonada com sobrecapa


Páginas: 192


ISBN: 978-85-8286-672-6


Publicação no Brasil: Maio de 2026


Coleção: Série em 4 volumes


Classificação indicativa: 14 anos


Preço de capa: R$ 49,80 Gostou do nosso conteúdo? Que tal apoiar o Yellow Talk? O Yellow também é podcast e canal no YouTube, e seu apoio pode ajudar o nosso trabalho a crescer cada vez mais. A partir de R$2,00 você já vai estar contribuindo para manter nosso site no ar. Para dar o seu apoio, basta clicar AQUI.

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