Oldboy e o mito da inveja
- Carlos Pedroso
- há 2 dias
- 3 min de leitura
Falar sobre Oldboy nos dias de hoje é um desafio considerável. Afinal, o mangá foi publicado há mais de três décadas, ganhou uma adaptação cinematográfica amplamente conhecida e já foi lançado no Brasil pelo menos duas vezes. Ainda assim, continua sendo uma história capaz de prender e, principalmente, de fascinar o leitor. A premissa, por si só, é irresistível: quem não gostaria de descobrir por que alguém foi mantido em cativeiro por dez anos? Assim como Goto, o protagonista, eu também queria compreender os motivos e, sobretudo, os porquês de tudo aquilo.
Ao longo de mais de 1.300 páginas, somos absorvidos por um universo construído em torno do mistério, da obsessão e da busca por respostas. Apesar da extensão, a leitura avança rapidamente. Isso não significa, porém, que os autores tratem seus personagens de forma superficial. Dos protagonistas aos coadjuvantes, todos recebem espaço para se desenvolver e apresentam diferentes camadas, contradições e complexidades.

Mesmo com a publicação brasileira dividida em três volumes, a fluidez da narrativa permanece intacta. À medida que avançamos, conhecemos novos personagens, acompanhamos a ampliação do conflito e começamos a compreender as motivações envolvidas naquele jogo. Cada informação acrescentada parece aproximar Goto da verdade, embora também revele o quanto ele permanece distante de entender o que realmente aconteceu.
A trama é repleta de reviravoltas e, em alguns momentos, pode transmitir a sensação de que determinados acontecimentos poderiam ter sido encurtados. No entanto, conforme o quebra-cabeça começa a ser montado, torna-se mais clara a intenção de apresentar cada etapa daquela disputa. O que, apenas no segundo volume, passa a ser chamado abertamente de “jogo” exige tempo para revelar suas regras, seus participantes e, principalmente, seu propósito.
Quando as primeiras amarras são desfeitas, começamos a compreender as verdadeiras motivações do antagonista. É nesse ponto que a obra alcança outro patamar. O confronto deixa de ser apenas uma investigação sobre o passado e se transforma em uma disputa psicológica profundamente doentia. Goto, até então o centro da narrativa, torna-se quase um coadjuvante diante de um plano elaborado por alguém que aparentemente não tem nada a perder. Desde o início, tudo parece ter sido cuidadosamente preparado.

Durante a leitura, muitas vezes me perguntei o que Goto poderia ter feito para provocar uma vingança daquela dimensão. No entanto, a história é desenvolvida de maneira tão consistente que, em determinado momento, essa pergunta deixa de ser apenas uma curiosidade e passa a ocupar o centro da experiência. Existem várias pistas espalhadas pela narrativa, seja no pequeno círculo social de Goto, seja nos personagens que surgem ao longo do caminho. A cada página, cresce a sensação de que todos fazem parte de um plano maior, conduzindo a obra a um dos clímax mais marcantes que já li em uma história.
Algumas narrativas, contudo, são tão envolventes que parecem não merecer um fim. Oldboy é uma delas.
É justamente nesse ponto que se encontra a ideia presente no título deste texto: o mito da inveja. Durante boa parte da trama, somos levados a acreditar que Goto cometeu algo monstruoso, talvez um crime, uma violência ou alguma ação imperdoável. Contudo, sua suposta culpa está ligada a um gesto muito mais banal: ele se importou com alguém.

Em determinadas circunstâncias, ser visto, reconhecido ou acolhido por outra pessoa pode gerar uma carga emocional difícil de suportar. Para alguns, receber empatia não representa apenas conforto, mas também a lembrança dolorosa de algo que lhes falta. A inveja, portanto, não está necessariamente relacionada ao dinheiro, ao prestígio ou aos bens materiais. Muitas vezes, ela nasce diante de uma qualidade, de uma atitude ou de uma capacidade que alguém deseja possuir, mas não consegue alcançar.
Invejamos aquilo que o outro consegue ser, sentir ou oferecer.
O mangá trabalha essa ideia com maestria ao mostrar que Goto possuía algo profundamente desejado por outra pessoa, embora ele próprio jamais tivesse atribuído valor a isso. Talvez por isso nunca tenha sido capaz de compreender plenamente os motivos que desencadearam sua tragédia. Para ele, aquele momento pertencia a um passado insignificante. Para outra pessoa, porém, tornou-se a origem de uma obsessão que atravessaria décadas.
Ao final, Oldboy mostra que a jornada pode ser muito mais poderosa do que a chegada. Finais anticlimáticos talvez sejam uma das melhores maneiras de nos obrigar a olhar para todo o caminho percorrido. O desfecho pode não oferecer exatamente aquilo que esperamos, mas isso não diminui o impacto da experiência. Pelo contrário, faz com que permaneçamos pensando na história muito depois de fechar a última página.




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