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  • Foto do escritorCarlos Pedroso

Quando foi que paramos de falar de quadrinhos para falar de editoras?


Ah, o desafio de iniciar um texto, uma jornada que frequentemente demanda esforço, pois é preciso externalizar pensamentos que muitas vezes se encaixam com perfeição na mente, mas que ao se materializarem no papel, perdem parte de seu brilho. No entanto, avancemos, por que embarcar nessa empreitada? Tenho notado, com profunda observação e seguimento, uma mudança marcante no universo dos quadrinhos brasileiros de renome, uma ênfase cada vez maior nas editoras. Quando menciono ênfase, quero abordar o termo em toda a sua complexidade, na sua essência. Em termos simples, temos voltado nossos olhos mais para as editoras do que propriamente para as histórias contadas em quadros e balões. Por quê? Não possuo resposta definitiva, mas alinhavarei algumas razões que, em minha visão, podem constituir a raiz do dilema.




Adentramos a era de globalização digital, um período onde as redes sociais amplificaram as vozes de todos, incluindo a minha, permitindo que ideias e opiniões fossem veiculadas com liberdade e amplitude. Com essa mudança, o leitor atual está mais próximo do processo de criação dos quadrinhos do que nunca. Ele se conecta com o autor, o editor, o ilustrador, o tradutor e até com o entregador que traz a obra até suas mãos, bem como com a própria gráfica. Todos que compõem esse universo aparentam deter relevância e clamam por protagonismo. Não pretendo criticar a atribuição de méritos ou elogios a indivíduos, porém, ressalto que todos passaram a compartilhar um peso igualitário, um equilíbrio que suscita a questão: então, nenhum elemento é mais crucial que o outro?



Confesso minha ignorância perante tal indagação, talvez essa dissolução da hierarquia tenha confundido o leitor, pois este, atualmente, anseia por pertencimento, por comunidade. Como manifestar esse sentimento? Através da aquisição? Do engajamento? Inúmeras são as possibilidades. Contudo, tem se tornado evidente que a estratégia mais eficaz para capturar atenção consiste em incessantemente promover compras e taggear editoras, editores e outros intermediários. Entretanto, e o roteirista? E o artista gráfico? Ah, esses não compartilharam meu post, então relegarei suas contribuições ao esquecimento. E a obra em si? Ah, essa, por enquanto, escapou ao meu escrutínio, mas sinto necessidade de exibir meu fervor à editora, de provar que sou um aficionado, um colecionador incondicional de todas as suas criações, independentemente da natureza do conteúdo.

Essa sequência interminável tem projetado cada vez mais luz sobre a editora e seus editores. Pode parecer um detalhe trivial, talvez algo que não interfira substancialmente. Será? Atualmente, as redes sociais conferem uma plataforma para críticas e elogios, uma faculdade que, em teoria, deveria ser benéfica. No entanto, frequentemente, ela se transmuta em algo prejudicial. A mínima falha cometida por uma editora resulta em crucificação proporcional à anterior exaltação. Entretanto, ponderemos: possuímos o direito de censurar, afinal, somos consumidores investidos de pagamentos. Sem dúvida, detemos tal prerrogativa, porém, convém recordar que o papel da editora consiste em oferecer produtos de qualidade, muitas vezes agindo nos bastidores, a ponto de se tornar praticamente invisível. Em razão disso, a verdadeira importância deveria residir na obra em si, não naqueles que a produziram. É notável como essa proximidade exacerbada frequentemente instiga uma desordem completa, desviando o foco do simples apreço por uma história em quadrinhos, independentemente de sua capa ser rígida ou sua folha ser proveniente de árvores.


No entanto, não é apenas o consumidor-leitor que carrega a responsabilidade por tal comportamento. Editores renomados também compartilham uma porção considerável de culpa, alimentando esse ciclo com seus espetáculos de divulgação, frequentemente desconectados da realidade intrínseca de certas obras. Claro, é inegável que as editoras precisam vender para subsistir. Porém, quando atingimos um ponto em que a editora se sobrepõe às suas próprias publicações, indagações inquietantes emergem: qual é o propósito de continuar produzindo quadrinhos? Será que tal esforço somente perpétua uma cultura de ostentação, de status ostensivo, onde se exige a posse de determinados exemplares para continuar pertencendo a um seleto círculo?


Devemos, então, colocar editoras no pedestal e relegar as obras a um papel secundário? Definitivamente não. As obras transcendem o tempo, sendo que, daqui a alguns anos, poderão ser publicadas por outras editoras. No entanto, a perspectiva de querer que "minha" editora prospere, que ela obtenha lucros e que compartilhe minhas postagens, demanda uma pausa para reflexão profunda. Possivelmente, chegou o momento de reavaliarmos nossa relação com os quadrinhos, de sondar a magnitude que eles detêm em nossas vidas. Quando nos tornamos ardorosos adeptos de editoras em detrimento dos próprios quadrinhos, algo está profundamente desajustado, e talvez essa seja a hora de examinarmos o abismo que se abre sob nossos pés.


Abra seu coração à leitura e contenha o ímpeto de postar.


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1 Yorum


Monique Mazzoli
Monique Mazzoli
29 Ağu 2023

Acho que o pessoal que lê quadrinhos, mas não está envolvido em criação de conteúdo, youtube, etc, não liga pra isso não... Acaba que na "Gibisfera" tudo vira polêmica, temos que trazer os QUADRINHOS para frente dos bate papos novamente. haha

Beğen
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