top of page

A San Diego Comic-Con, a IA e a nona arte como deve ser

  • Foto do escritor: Ronaldo Gillet
    Ronaldo Gillet
  • 20 de jan.
  • 3 min de leitura

Durante quase dois anos, a mudança passou quase invisível, até que finalmente, de forma oficial, a Mostra de Arte da San Diego Comic-Con decidiu banir obras produzidas total ou parcialmente por Inteligência Artificial. Antes, esse tipo de trabalho era tolerado, desde que identificado e ficasse fora do circuito de vendas - uma regra que só ganhou atenção após críticas recentes de artistas e do público.


Diferente do Vale dos Artistas, que já proíbe IA, a Mostra de Arte funciona como uma galeria aberta ao público, sem necessidade de ingresso, reunindo mais de cem artistas profissionais e amadores, com desenhos, pinturas, esculturas e peças únicas à venda, além de exibir materiais indicados ao Prêmio Eisner. Com a palavra final nas mãos da coordenadora LaFrance Bragg e expectativa de fiscalização mais rigorosa a partir de 2026, a Comic-Con deixa claro que, mesmo em um evento voltado à cultura pop e à inovação, a autoria humana ainda é um critério inegociável.

À primeira vista, pode parecer burocracia mas para quem vive de quadrinhos, pode ser o sintoma de novos (e bons) tempos. A Comic-Con não está debatendo software ou inovação e sim discutindo o que merece ocupar o centro dos debates, afinal, nos quadrinhos, esse tipo de escolha nunca foi e nem poderia ser neutra.


A Inteligência Artificial hoje produz imagens em milésimos de segundos, replica estilos com precisão cirúrgica e atravessa décadas de história visual como quem passa os olhos por um mural infinito. Especialistas apontam que mais de 60% das atividades criativas globais já sofrem impacto direto da IA generativa. No campo da ilustração, plataformas como Midjourney e Stable Diffusion avançam rápido, enquanto artistas relatam queda em comissões, confusão no público leitor e uma sensação crescente de que o processo deixou de importar, desde que o resultado seja “bonito o suficiente”.


O problema é que em se tratando da nona arte, a verdade é que quadrinhos nascem do caminho torto, da tentativa falha e do traço que melhora depois de cem páginas mal resolvidas. Uma HQ de respeito muitas vezes nasce da insistência, do repertório construído com tempo e da voz que demora a se encontrar dentro do artista. A IA, por mais impressionante que possa parecer, não atravessa esse percurso. Ela pula etapas e, é preciso dizer que todo salto pode ter uma espécie de “custo simbólico”.


Não é uma questão de romantizar o passado, mas de reconhecer que essas ferramentas aprendem a partir de um imenso arquivo de obras humanas, muitas vezes sem consentimento, crédito ou retorno. Quando uma imagem gerada por IA ocupa o mesmo espaço de um artista em uma convenção, a disputa já não é mais quanto ao que entendemos por uma questão estética. Um lado carrega história e autoria, já o outro vira mera estatística.


Mas, será que isso toca diretamente o mercado brasileiro. No nosso país quadrinhos muitas vezes foram concebidos de maneira independente, quase que como um ato de resistência - com pouco apoio institucional, muita persistência e eventos que funcionam como linha de sobrevivência para artistas independentes. Feiras, convenções e mesas de artista garantem o pão de cada dia e o nanquim das próximas produções. Inserir arte gerada por IA nesse ecossistema sufoca ainda mais quem já trabalha no limite.


A decisão da SDCC faz ecoar uma pergunta que muita gente evita fazer: todo avanço tecnológico precisa ocupar absolutamente todos os espaços? Afinal, algumas ferramentas deveriam existir tão somente existem pra apoiar os processos e não pra substituí-los.


Quadrinhos sempre falaram de humanidade, mesmo quando os maiores frutos dessa arte usaram capas, máscaras ou fizeram parte de mundos imaginários. O gesto de desenhar, escrever e narrar carrega intenção, memória e, sem exageros, a alma dos autores. Quando tudo isso vira apenas um prompt bem elaborado, algo se perdeu no caminho, mesmo que a imagem final impressione olhares mais leigos.


Talvez o debate real não seja se a IA pode criar imagens críveis ou que nos toquem de alguma maneira, mas se estamos dispostos a abrir mão do percurso artístico em nome da velocidade de entrega. Vamos aceitar trocar experiência por eficiência e passar a entender a arte como um mero produto visual?


A Comic-Con tomou uma posição. clara o bastante para acender um alerta. E o mercado nacional de quadrinhos precisa olhar para isso sem pânico, com a maturidade de quem sabe que significado é a única coisa que permanece.

O futuro dos quadrinhos não será decidido por algoritmos ou por lapsos de nostalgia, mas pelas escolhas que estamos fazendo agora e sobre o que queremos preservar quando tudo parece facilmente replicável.


Gostou do nosso conteúdo? Que tal apoiar o Yellow Talk? O Yellow também é podcast e canal no YouTube, e seu apoio pode ajudar o nosso trabalho a crescer cada vez mais. A partir de R$2,00 você já vai estar contribuindo para manter nosso site no ar. Para dar o seu apoio, basta clicar AQUI.

Aqui a gente fala sobre a cultura pop com bom humor e acidez na medida certa. Trazemos pautas que realmente importam e merecem ser discutidas.

FIQUE LIGADO NASREDES SOCIAIS

Compre pelo link e nos ajude

AMZN_BIG.D-8fb0be81.png

ASSINE

Assine nossa newsletter e fique por dentro de todo conteúdo do site.

Obrigado pelo envio!

© 2025 YELLOW TALK 

bottom of page