O Eu Que Você Ama No Escuro, uma relação de amor perigosa
- Monique Mazzoli

- há 12 horas
- 4 min de leitura
Com os crescentes casos de feminicídio no Brasil, sempre vale ressaltar o quanto muitas dessas tragédias começam com uma história de amor. Segundo reportagem publicada pelo G1 em 20 de janeiro de 2026, o país registrou 1.470 feminicídios em 2025, um número recorde, com média de quatro mulheres assassinadas por dia, conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A grande questão talvez seja: que tipo de amor é esse, que esconde no escuro suas verdadeiras intenções e obsessões?

Li O Eu Que Você Ama no Escuro, do queridinho Skottie Young, famoso aqui no Brasil por seus quadrinhos de super-heróis e também pela série Eu Odeio Conto de Fadas, em 2022. Na época, eu escrevia para o site GeekFyMe, que tinha relação com a loja Comics and Signatures, responsável por trazer quadrinhos importados para o Brasil.
Por conta disso, eu gostava de explorar o que saía de interessante pela Boom! Studios, Dark Horse e Image, que são minhas editoras preferidas lá de fora, e acabei me deparando com essa pérola que, infelizmente, até hoje não foi publicada no Brasil.
Como um sinal de alerta e urgência a todas nós, mulheres, decidi reviver essa resenha. Em pleno 2026, nada mudou. Mas fica como dica esse conto de fadas com um príncipe encantado sombrio, para ilustrar um caso que merece a atenção de todos nós.
Espero que gostem.
O que temos aqui é uma história bem atípica, que saiu pela Image Comics, onde a musa de inspiração passou de uma “Mona Lisa”, de Da Vinci, para “Deterioração da Mente sobre a Matéria”, de Otto Rapp, em pouco tempo. O que parecia ser uma relação inspiradora se transformou em um romance doentio, claustrofóbico e cheio de horror.
Rô, uma artista plástica que buscava inspiração para seu novo projeto, procurava um local especial onde pudesse pintar e se encontrar como artista. Ao chegar a uma pequena cidade, encontrou o que parecia ser a escolha perfeita: uma casa mal-assombrada.

Como nem toda inspiração vem num sopro, as primeiras semanas de trabalho pareceram ter sido em vão, e nem uma só gota de tinta encontrou seu caminho até a tela. Sozinha na casa, até então assombrada, Rô fazia piadas e falava sozinha, distraindo a mente em um jogo interno: se houvesse mesmo um fantasma ali… até o dia em que alguém lhe respondeu.

Sócrates tinha alguém que era o pivô de toda a sua inspiração: uma voz em sua cabeça que lhe garantia o conhecimento para seu sucesso, chamada Daemon. Aqui, parecia que Rô havia encontrado o seu Daemon, seu motivo de inspiração, a voz que a guiava e fornecia companhia e bem-estar. Será que ela estava ficando louca? Louca ou não, uma relação se estabeleceu entre artista e criatura, quase como em Ghost: Do Outro Lado da Vida. Mas não era bem um fantasma que estava vivendo ali.
O que parecia ter sido um vislumbre de solução para seus problemas se tornou uma relação doentia de possessão, e aquele ser que até então lhe fornecia alento agora a mantinha em uma prisão, não querendo mais se separar, tampouco dividi-la com outros. A inevitável e intensa conexão que Rô estabeleceu com seu amante sobrenatural fez com que ela percebesse, ainda que tardiamente, o perigo fatal que aquele relacionamento representava.

“Eu perdi a visão de mim mesma por um tempo. Não sabia o que eu queria. O que eu era. Eu estava procurando por algo que me transformasse… seja lá o que isso signifique. Eu encontrei, seja lá o que você for… Fiquei envolvida na sua possibilidade. Pensei que você pudesse me entender e me apaixonei por isso. Mas agora, te vejo de verdade.”
A história te prende, e o que parece ser uma narrativa boba e divertida se transforma, diante dos seus olhos, em uma sinistra relação abusiva entre o real e o sobrenatural, algo raramente explorado dessa forma, com um desfecho inesperado. A arte de Jorge Corona te conduz por belas formas e cores que traduzem bem os momentos de leveza e horror, e o roteiro de Skottie Young te faz não querer perder um só instante desse conto, como em um bom filme de suspense.

Dica de relacionamento, crianças: cuidado com quem você se envolve nas sombras. Alguém que não se mostra pode estar escondendo os piores segredos e horrores.
Então, não se relacione com estranhos em casas assombradas e leia O Eu Que Você Ama no Escuro para tirar suas próprias conclusões. E não esqueça de voltar aqui para contar sua experiência!
A Image disponibilizou o primeiro issue para leitura gratuita online, que você encontra AQUI. Mas também é possível encontrar os cinco issues traduzidos em sites pela internet afora, ou adquiri-los pelo Amazon Kindle AQUI.
Ainda torço para que um dia alguma editora brasileira olhe para essa história e a traga para nós.






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