top of page

Antes dos Power Rangers, Gorenger

  • Foto do escritor: Ronaldo Gillet
    Ronaldo Gillet
  • há 1 hora
  • 3 min de leitura

O mangá foi publicado em 2023 pela New Pop
O mangá foi publicado em 2023 pela New Pop

Crescer nos anos 1980 e início dos 1990 no Brasil significava, para muitos de nós, entusiastas da cultura japonesa, atravessar as tardes diante da televisão acompanhando heróis coloridos enfrentando ameaças exageradas. Havia ali algo que ia além da fantasia e do nonsense. Era uma espécie de ritual de pertencimento que me permitia abraçar a sensação de que o mundo podia ser salvo antes do jantar, exatamente como pude revisitar nas páginas de Esquadrão Secreto Gorenger, mangá one-shot com 320 páginas, publicado no Brasil pela editora New Pop. Quando terminei a leitura, confesso que voltei exatamente a esse ponto de partida.



Série de TV de Esquadrão Secreto Gorenger
Série de TV de Esquadrão Secreto Gorenger

Criado por Shotaro Ishinomori, o mangá antecede a febre que mais tarde seria consolidada, aqui no Brasil, por séries de TV, os chamados tokusatsus, como Comando Estelar Flashman e Esquadrão Relâmpago Changeman, exibidas pela extinta Rede Manchete. A explosão global de Power Rangers, transmitida em solo tupiniquim pela TV Globo, viria algum tempo depois. Lendo Gorenger hoje, fica muito claro para mim que nada daquilo surgiu por acaso. A base já havia sido pavimentada no fundo da minha mente nerd.



Os cinco Gorengers
Os cinco Gorengers

A premissa do mangá, publicado originalmente no Japão entre 1975 e 1976 (vale lembrar que a série de TV foi exibida entre 1975 e 1977 em solo japonês), é direta. Cinco jovens são recrutados pela organização EAGLE para enfrentar a Cruz Negra, um grupo terrorista que mistura tecnologia, fanatismo e uma estética quase teatral na condução do caos. O tratamento dado à narrativa, no entanto, surpreende. Diferentemente da memória mais leve que muitos guardam das versões televisivas do gênero, o mangá de Ishinomori assume um tom mais adulto. Há mortes, consequências e uma sensação constante de risco real.



A arte de Shotaro IshinoMori
A arte de Shotaro IshinoMori

No primeiro arco, percebi que o foco não está apenas nos confrontos, mas na construção do grupo a partir de noções de unidade que precisam ser colocadas em prática. Os Gorengers não surgem afinados. falhas, tensão e crescimento gradual. Esse processo transforma o que poderia ser apenas uma aventura episódica em narrativa de amadurecimento. O espírito do Shōnen está ali, jovens diante do impossível, mas a condução do autor adiciona densidade e responsabilidade.



Gorenger traduz bem o senso de trabalho em equipe
Gorenger traduz bem o senso de trabalho em equipe

Entre os integrantes, o Gorenger azul me chamou atenção de maneira especial. Ele não é o mais explosivo, tampouco o mais espalhafatoso. É estratégico, contido, quase introspectivo. Gosto desse tipo de personagem que lidera sem precisar se impor no grito. Sua presença dá equilíbrio à equipe e sustenta boa parte da tensão dramática.

Visualmente, a obra alterna leveza e impacto. Em vários momentos senti reverberar a tradição de Osamu Tezuka na expressividade dos rostos e na clareza da narrativa gráfica. Em contrapartida, os enquadramentos das cenas de ação se tornam mais densos, quase sufocantes, reforçando o clima sério da trama. Essa oscilação funciona muito bem e ajuda a manter o leitor vidrado.



Changeman era exibido pela TV Manchete no Brasil
Changeman era exibido pela TV Manchete no Brasil

A publicação pela New Pop me parece um movimento editorial importante. Em um mercado que já recebeu variações do gênero e diferentes produtos ligados ao tokusatsu, trazer a obra fundadora é oferecer contexto, principalmente para leitores de primeira viagem. É permitir que quem cresceu vendo capacetes coloridos na TV, como eu cresci cercado por amigos fascinados por tudo aquilo (eu desejava ser Tommy, o Ranger Verde, do fundo da minha alma nerd) descubra que tudo começou em preto e branco, com uma proposta mais crua e surpreendentemente madura.



Flashman encantou gerações
Flashman encantou gerações

Ao final da leitura, o que fica para mim é a percepção de que Gorenger ultrapassa os limites de uma simples curiosidade histórica. Trata-se da fundação de um modelo narrativo que atravessou décadas. Talvez o mais interessante seja perceber que, antes de virar fórmula - copiada infinitas vezes -, aquilo já era uma história muito bem contada.



Que Power Ranger você queria ser?
Que Power Ranger você queria ser?

Gostou do nosso conteúdo? Que tal apoiar o Yellow Talk? O Yellow também é podcast e canal no YouTube, e seu apoio pode ajudar o nosso trabalho a crescer cada vez mais. A partir de R$2,00 você já vai estar contribuindo para manter nosso site no ar. Para dar o seu apoio, basta clicar AQUI.

Comentários


Aqui a gente fala sobre a cultura pop com bom humor e acidez na medida certa. Trazemos pautas que realmente importam e merecem ser discutidas.

FIQUE LIGADO NASREDES SOCIAIS

Compre pelo link e nos ajude

AMZN_BIG.D-8fb0be81.png

ASSINE

Assine nossa newsletter e fique por dentro de todo conteúdo do site.

Obrigado pelo envio!

© 2026 YELLOW TALK 

bottom of page