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Absolute Caçador de Marte: psicodelia, paranoia e arte em estado puro

  • Foto do escritor: Ronaldo Gillet
    Ronaldo Gillet
  • há 52 minutos
  • 3 min de leitura

Certos personagens parecem condenados à lateralidade, e é curioso perceber o quanto o Caçador de Marte sempre me soou assim. Surgido nos quadrinhos como um ser poderoso demais para ser ignorado, fundador da Liga da Justiça, o verdão do planeta vermelho também carregou o peso de ser silencioso demais para virar fenômeno de vendas. Criado em 1955 por Joseph Samachson e Joe Certa, no auge da paranoia nuclear e da ficção científica como válvula de escape, nasceu estrangeiro em todos os sentidos: um alienígena tentando compreender os humanos enquanto os humanos tentavam sobreviver ao medo do invisível.

Durante décadas foi lembrado pela telepatia, pela força comparável à de um Superman verde, mas raramente protagonizou seu próprio tempo. Mesmo fases mais densas, como a conduzida por John Ostrander, aprofundaram o trauma do último marciano sem colocá-lo no centro das conversas. Talvez porque J’onn sempre tenha encarnado o “estrangeiro absoluto”, aquele que nunca se assimila por completo.

É nesse ponto que a versão do universo Absolute, escrita por Deniz Camp e desenhada e colorida por Javier Rodríguez, soa necessária. A DC opta por tocar na ferida não com discursos panfletários, mas por meio da linguagem. Aqui, John Jones é um agente do FBI atravessado por uma entidade chamada “Marciano”, nome que denuncia apenas sua inadequação ao ambiente terrestre. Não se trata apenas de um herói disfarçado de humano, mas de um homem que passa a duvidar da própria percepção. Essa equação amarra a mente do leitor e, pouco a pouco, encontra seu próprio desate.


Ao ler a edição lançada pela Panini, que compila os dois primeiros volumes publicados nos Estados Unidos, e ver fumaça escapando das cabeças das pessoas, não enxerguei apenas um recurso estético. Vi pensamentos materializados, preconceitos condensados, ruídos sociais que já não cabem no invólucro craniano de ninguém. A entidade fala com tipografia distinta, a estrutura dos diálogos não é linear, a narrativa embaralha a lógica. O mundo perde contorno à medida que a história avança. Nada ali soa gratuito.

A perseguição aos estrangeiros deixou de ser subtexto no noticiário. Nos Estados Unidos, relatórios recentes apontam níveis historicamente elevados de crimes de ódio motivados por aversão racial, religiosa, de orientação sexual ou de determinadas identidades de gênero. No Brasil também não é diferente - um país onde a xenofobia regional explode nas redes com frequência inquietante. O “outro” volta a ocupar o papel de ameaça. A HQ não apresenta estatísticas, mas respira esse clima. Há um episódio envolvendo um atirador movido pela aversão ao comportamento “estranho” das pessoas ao redor. A metáfora é direta e desconfortável. Lembro de como Chris Claremont transformou os X-Men em alegoria das minorias perseguidas. Camp percorre trilha semelhante, mas evita bandeiras explícitas. Prefere mostrar como a paranoia se infiltra na percepção cotidiana.


O psicodelismo da arte de Rodríguez dialoga com a contracultura dos anos 1960, quando expandir a consciência também significava confrontar estruturas rígidas. Cores chapadas, composições ousadas, páginas que parecem invadir a mente de quem lê. Se outro artista estivesse à frente, a história talvez permanecesse interessante, mas dificilmente teria o mesmo impacto. Roteiro e arte formam uma engrenagem única. A leitura exige atenção, não erudição prévia, e se afasta de qualquer hermetismo gratuito.


Percebo ainda um reposicionamento histórico. O personagem que orbitou o protagonismo por tanto tempo ganha - finalmente - centralidade simbólica. O marciano deixa de ser apenas vítima do preconceito humano e se torna espelho dos medos da própria humanidade. Ao transformar a mente em campo de batalha, a HQ fala de identidade fragmentada, bolhas ideológicas e de uma sociedade saturada por vozes que competem por espaço.


Para quem começa a ler quadrinhos, funciona como porta de entrada consistente. A premissa é clara, os temas dialogam com o presente, a estética seduz e não exige consulta enciclopédica. Para leitores antigos, representa um dos momentos mais ousados do personagem em décadas, alinhado ao espírito inquieto do tempo.


Ao concluir a leitura, a sensação que permanece é a de que a DC não buscou apenas modernizar o Caçador de Marte. Preferiu expor o desconforto de habitar um mundo em que o estrangeiro é sempre suspeito e em que, por vezes, a voz mais estranha é aquela que ecoa dentro de nós.


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