Meus Fantasmas e o peso das memórias herdadas
- Ronaldo Gillet
- há 4 horas
- 5 min de leitura

Quantas das nossas dores realmente nos pertencem? Depois de concluir a leitura de ‘Meus Fantasmas’ de Tessa Hulls, essa pergunta permaneceu comigo por dias. Não porque a autora ofereça uma resposta definitiva sobre essa indagação, mas porque sua graphic novel demonstra que talvez a própria pergunta esteja errada - e isso é um paradoxo, eu sei (rs). A verdade é que certas dores talvez não sejam inteiramente nossas; tendo começado muito antes do nosso nascimento.
Publicada no Brasil pelo selo Quadrinhos na Cia, do grupo editorial Companhia das Letras, a obra é apresentada como uma autobiografia. Tecnicamente, está correto, mas, essa definição não dá conta da complexidade do projeto, que levou nada menos que 10 anos para ser concluído. Meus Fantasmas é simultaneamente memória familiar, investigação histórica, reflexão sobre imigração e um minucioso estudo sobre trauma geracional. Também não seria exagero nenhum afirmar que a obra é uma demonstração impressionante do potencial dos quadrinhos como ferramenta de pesquisa e interpretação do mundo, principalmente se o ponto de vista para tal for diacrônico, ou seja, analisando dados e (ou) fenômenos ao longo do tempo. Talvez seja justamente essa amplitude que explique o reconhecimento extraordinário recebido pela obra. Em 2025, Hulls conquistou o Pulitzer na categoria Memória ou Autobiografia, tornando-se a primeira quadrinista a alcançar tal feito com uma graphic novel. No mesmo período, Meus Fantasmas também recebeu o Eisner na categoria Best Graphic Memoir, uma combinação raríssima de honrarias que evidencia o fato de que a obra que transcendeu as chamadas fronteiras tradicionais dos quadrinhos.

A narrativa parte de uma questão íntima. Tessa Hulls busca compreender a relação difícil que mantém com a própria mãe. O problema é que à medida que a investigação avança, a autora percebe que as respostas não podem ser catalogadas somente nos vazios e situações não tão bem resolvidas da geração anterior. Elas se escondem décadas antes, na trajetória de sua avó, Sun Yi, uma mulher cuja vida ficou marcada pelos grandes abalos sísmicos da história chinesa do século XX.
Durante a leitura, ora ou outra nos deparamos com uma narrativa construída a partir das consequências diretas e indiretas a três gerações de mulheres cercadas por uma mesma inquietação. Afinal de contas, o que acontece quando a história deixa de ser um acontecimento distante e passa a habitar o interior de uma família?
Ao acompanhar essa jornada, Hulls reconstrói um mosaico marcado pela ocupação japonesa da China, pela guerra civil entre nacionalistas e comunistas, pelos deslocamentos populacionais provocados pelas transformações políticas do pós-guerra e pelas experiências de imigração que redefiniram a identidade de sua família.

Mas existe algo admirável na forma como a autora aborda esse contexto, já que ela evita transformar a obra em uma espécie de tribunal ideológico. A China do século XX continua sendo objeto de debates intensos entre pesquisadores (historiadores, cientistas sociais, cientistas políticos, etc). Dependendo da perspectiva adotada, o período liderado por Mao Tsé-Tung pode ser analisado tanto pelos avanços em áreas como alfabetização, saúde pública e modernização do país quanto pelos enormes custos humanos associados a campanhas como O Grande Salto Adiante (1958-1960) e a Revolução Cultural (1966-1976).
Tessa Hulls não tenta arbitrar essa discussão porque seu interesse está em outro lugar. Ela não quer saber apenas o que aconteceu e sim entender o que permaneceu nela e nas mulheres da vida dela. Essa diferença é fundamental pro entendimento da obra, diga-se de passagem.
Meus Fantasmas observa o que sobra em meio à penumbra quando os holofotes dos analistas se apagam. A missão de Tessa também parece ser colocar uma lupa sobre sua própria trajetória (e de sua família), transformando essa ação em um espelho onde outras famílias fragmentadas, memórias interrompidas e identidades em reconstrução surjam. Não é difícil encontrar outras pessoas por aí (tendo ou não vivido algo semelhante ao que Tessa viveu), tentando encontrar sentido em experiências que muitas vezes não conseguem nomear.
Nesse aspecto, a obra dialoga diretamente com pesquisas contemporâneas sobre trauma intergeracional. Diversos estudos envolvendo descendentes de refugiados, sobreviventes de guerras e comunidades deslocadas apontam que experiências traumáticas podem castigar gerações inteiras por meio de determinados comportamentos, silêncios, mecanismos de defesa e maneiras de perceber o mundo. Os fantasmas do título nascem exatamente desse fenômeno.
Ao longo da leitura, fica evidente que Hulls está menos interessada em reconstruir fatos do que em investigar e, por vezes, expurgar suas reverberações. Essa perspectiva também aproxima a obra de um dos temas mais fascinantes dos estudos sobre imigração: a experiência de quem viveu algum tipo de diáspora, afinal, migrar nunca significa apenas mudar de país.
Abandonar referências, reconstruir pertencimentos e negociar constantemente a relação entre passado e presente passa longe de ser algo simples de ser feito. Muitos descendentes de imigrantes vivem uma situação peculiar. Herdam uma cultura que conhecem apenas parcialmente e sentem-se ligados a uma terra que nunca habitaram completamente. Se imagine agora carregando memórias não experienciadas. É esquisito, certo?
Cabe dizer também que a China marca presença em cada página da obra, mas quase sempre como uma presença espectral, um tipo de pátria emocional entrecortada por histórias fragmentadas, lembranças repletas de hiatos e silêncios familiares.
Visualmente, a autora tem um traço poderosamente inquieto, expressivo e cheio de subjetividade. Em vez de buscar o realismo documental, Hulls entrega muitas vezes páginas que dialogam com o onírico. Essa liberdade gráfica permite que acontecimentos históricos e conflitos íntimos coexistam no mesmo espaço narrativo e o resultado é uma experiência de leitura que alterna constantemente entre a pesquisa histórica e a introspecção psicológica.
Outro mérito da obra está na honestidade com que Hulls conduz sua investigação. Em vários momentos, ela admite não possuir todas as respostas que eventualmente um ou outro leitor poderia exigir. Existem lacunas difíceis de preencher, em meio a versões conflitantes dos mesmos acontecimentos.
Paradoxalmente, talvez seja justamente essa incerteza que fortaleça a narrativa. Nesse sentido, Meus Fantasmas aproxima-se de obras fundamentais como Maus, de Art Spiegelman, e Persépolis, de Marjane Satrapi. É um quadrinho que parece entender bem que, para além de arquivos físicos ou mentais, as vivências continuam respirando (e até transpirando) dentro das pessoas.
Tessa Hulls produziu algo muito maior que uma autobiografia. A autora falar sobre a China e sobre quaisquer famílias marcadas por momentos traumatizantes onde a imigração se apresenta como única saída para a sobrevivência. A quadrinista compreende que o passado é liquido e volátil nunca desaparece completamente da vida de ninguém. Gostou do nosso conteúdo? Que tal apoiar o Yellow Talk? O Yellow também é podcast e canal no YouTube, e seu apoio pode ajudar o nosso trabalho a crescer cada vez mais. A partir de R$2,00 você já vai estar contribuindo para manter nosso site no ar. Para dar o seu apoio, basta clicar AQUI.




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