Carne de Canhão: Um Retrato Cru da Infância
- Carlos Pedroso
- há 2 dias
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É estranho pensar que alguns quadrinhos conseguem representar tão bem a infância em lugares específicos, o que os torna valiosos para uma grande parte das pessoas, inclusive para mim. Carne de canhão de Aroha Travé é um retrato sujo e realista da infância e, mesmo repleto de controvérsia, esse período é marcado por energia, imaginação e invenções. A obra já começa com Kilian levando um tombo feio, batendo a cabeça na quina da mesa e agora está sangrando. Yanira, sua irmã mais velha, decide pedir ajuda aos vizinhos metaleiros (uma dupla bem suspeita). Assim começa Carne de Canhão, e a coisa esquenta ainda mais depois.

O mais interessante de Carne de Canhão não é sua representação da infância, mas a forma como ela é tratada, naturalmente, como se fosse algo normal; talvez seja para muitas pessoas, mas não deveria. O autor, com muito humor e sarcasmo, lida com rejeição, falta de recursos e dificuldades da infância, de maneira muito sofisticada, que às vezes a gente nem percebe, mas que estão lá, sutilmente: crianças que apanham dos pais, abusos, pais ausentes, mães que têm que trabalhar e deixam seus filhos sozinhos. Tudo isso está exposto e trabalhado em camadas que muitas vezes ignoramos por se tratar de uma obra de humor, mas isso não tira o peso de ser algo realmente sensível e, por vezes, revoltante para quem está lendo.

Mas esse verniz do humor serve muito bem ao seu propósito, e também à ironia de ser as crianças os vetores de inocência e prosperidade na vida de muitas pessoas. Mas esquecemos que essas mesmas crianças também enfrentam seus próprios problemas, seja em casa, seja na escola. Elas têm que lidar com o fato de, muitas vezes, não saberem o que fazer ou até mesmo com a possibilidade de errar sem serem julgadas. Uma das partes mais pesadas, na minha opinião, é a de uma criança que aparece como fantasma e começa a falar sobre como morreu (não vou dar spoiler), mas realmente foi algo que me marcou, mostrando como as crianças são vulneráveis e precisam de cuidados.
Ao final de Carne de canhão, o que fica é um sentimento muito peculiar ao imaginar, ou mesmo ao lembrar, como grande parte do que foi mostrado na obra me remete à infância, trazendo uma mistura de saudades e reflexões sobre um tempo que não volta, mas que serve de aprendizado. Quem aqui nunca se arrebentou quando criança? Ou mesmo quem aqui nunca imaginou um amigo ‘fantasma’? Tudo isso fez parte de uma infância cheia de energia, mas também escondia traumas, dificuldades e, principalmente, a ausência. Pois, assim como na história, muitas crianças não tiveram a figura paterna, eu sou uma delas, e isso faz muita diferença.
“Carne de Canhão. Ser carne de canhão = pertencer ao setor mais baixo da escala social. Ex: Meu vizinho é carne de canhão. Não estuda nem trabalha. Passa todo o dia vagueando pelas ruas.”
– Diccionario de Dichos y Frases Hechas, de Juan Salanova Arnal




Essa parte do fantasma foi a que mais me pegou também. Deu uma pausa no humor e pesou clima. Adorei o texto, descreveu muito bem. Gostei demais desse quadrinho.