Marisqueiras: o sal da terra e o tempo do mar
- Ronaldo Gillet
- 12 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

A maré ainda não subiu. O céu está aceso de sol, e o vento traz aquele cheiro antigo - uma mistura de sal, areia e sobrevivência. Lá embaixo, entre as pedras, as mulheres já começaram o dia. Elas caminham curvadas, com as mãos cavando a lama, recolhendo o que o mar oferece antes de ir embora.
O tempo delas é o tempo da maré: quando ela sobe, descansam; quando ela baixa, o corpo se inclina para o trabalho. É nesse ritmo ancestral que vive Marisqueiras, quadrinho-reportagem de Pablito Aguiar, publicado pelo selo HQ Para Todos, da Editora Conrad.

A leitura é breve - afinal, a jornada do leitor se encerra (ou não), em 32 páginas - nessa obra sobre mulheres que o muita gente teima em não enxergar. Pablito não inventa nada, apenas ouve essas personagens do mundo real. E dessa escuta nasce uma das HQs mais belas e necessárias do nosso tempo.
Na Ilha de Maré, na Bahia, o autor acompanha Mari e Rejane, duas marisqueiras que encontram na beira d’água o sustento da casa e a herança das avós. Elas trabalham desde cedo, entre a lama e o sal, transformando o gesto simples de catar mariscos em uma coreografia de resistência.
As histórias que contam - de fé, de luta, de cansaço - são também o retrato de milhares de mulheres brasileiras invisibilizadas que sustentam famílias inteiras com seus trabalhos.
Segundo o IBGE, mais de 40% das mulheres ocupadas no Brasil estão em atividades informais, muitas delas sem qualquer direito trabalhista ou previdenciário. E, entre as pescadoras artesanais, estima-se que cerca de 60% vivem exclusivamente desse ofício, em condições que misturam amor e exaustão.
São mulheres que movem a economia das marés, mas que raramente aparecem nas estatísticas ou nas manchetes.
Pablito Aguiar transforma esses números em humanidade. Sua arte tem o traço de quem entende o silêncio: linhas suaves, tons terrosos, contornos que respiram e fazem o leitor suspirar. Cada quadro parece um pedaço da paisagem. O céu azul lavado de calor, o brilho do sol refletindo na água rasa e o peso das mãos que cavam carregam uma prosa tipicamente nordestina.
Marisqueiras também é denúncia. As falas de Mari e Rejane expõem as marcas de um Brasil esquecido pela contaminação das águas por indústrias petroquímicas. O descaso do poder público também se faz presente a partir de um olhar sobre o impacto das mudanças climáticas.
Quando o mar deixa de dar o que dava, não é apenas a renda que some, mas a identidade de uma comunidade inteira. O quadrinho segue a tradição do jornalismo em quadrinhos - gênero abraçado com excelência por de autores como Joe Sacco (Palestina) e Aimée de Jongh (A Sala de Espera da Europa)-, mas com um sotaque de maré tupiniquim, de fala mansa e sabedoria popular. É jornalismo com corpo e alma, feito pra sentir. E talvez seja isso o que o torna tão poderoso.
O selo HQ Para Todos, da Conrad, nasce com o propósito de democratizar o acesso às histórias em quadrinhos e de amplificar vozes periféricas. Dentro desse projeto, a obra parece um lembrete de que o Brasil real resiste nas cozinhas, feiras e nas mãos que carrega a nação no colo.
Há uma beleza amarga nas últimas páginas. As mulheres seguem caminhando, o mar segue voltando, e a vida insiste em recomeçar. A maré, afinal, é um ciclo - como o trabalho a fé, e o amor. Marisqueiras termina, mas o sal da sua narrativa permanece grudado na pele do leitor, lembrando que a verdadeira força do Brasil nunca esteve nos palanques nem nas promessas, e sim nas costas curvadas de quem acorda antes do sol para garantir o pão de cada dia.




Comentários