Ashita no Joe e a infância que o mundo nocauteou
- Ronaldo Gillet
- há 26 minutos
- 4 min de leitura

De acordo com dados do UNICEF e de organismos internacionais ligados à proteção da infância, o mundo ainda convive com algo em torno de 140 milhões de crianças órfãs ou privadas de cuidados parentais. É um número grande demais para caber numa estatística e pequeno demais quando a gente lembra que cada unidade desse dado tem nome, rosto e fome. No Japão do pós-guerra, cenário que molda o mangá Ashita no Joe, isso não era exceção - fazia parte da paisagem. Crianças espalhadas por cortiços, becos e abrigos improvisados, empurradas para a delinquência não por vocação, mas por incontáveis ausências, sobretudo do Estado. É desse chão instável que Joe Yabuki emerge.
Com esse pano de fundo armado, a trama se apresenta aos leitores com a força de um cruzado de direita do Rocky Balboa. Publicado no Brasil pela New Pop, este primeiro volume (já peguei até o volume 06, mas só li o primeiro até agora) chega pronto para sacudir o queixo de quem já ouviu falar da lenda, mas talvez nunca tenha parado para dar uma chance ao material publicado pela primeira vez na em 1º de janeiro de 1968, na revista japonesa Weekly Shōnen Magazine, da editora Kodansha.
A narrativa não se apressa, nem faz esforço para conquistar empatia. Ashita no Joe, que significa literalmente “Joe do Amanhã”, passa boa parte do tempo recusando qualquer promessa de futuro. Joe é jovem, impulsivo, agressivo. Rouba, briga, engana, testa limites cutucando o mundo com vara curta pra ver se alguém reage. A reação vem, rápida e brutal como um uppercut de Mike Tyson, catapultando o protagonista para o reformatório.

Ali, longe de qualquer ideia romântica de recuperação, Joe encara um adversário duro na queda trajado de violência sistemática, humilhações e abuso. Um retrato que dialoga de forma desconfortavelmente atual com pesquisas contemporâneas sobre ressocialização juvenil. Estudos internacionais indicam que centros de detenção para jovens frequentemente apresentam taxas de reincidência superiores a 50%, justamente por reforçarem a lógica da força, da hierarquia e da exclusão. O roteiro de Asao Takamori é certeiro ao fisgar o leitor nesses textos e subtextos, sem sublinhar nada, confiando na inteligência de quem está lendo.
Quando o assunto é arte, as quase 400 páginas deste volume são uma sequência de socos à altura do baço. O traço de Tetsuya Chiba potencializa a sensação de mundo áspero que acompanha toda a leitura. Não há suavidade nos enquadramentos, nem rostos idealizados. Os corpos são secos, as expressões duras (mesmo quando um ou outro sorriso aparece no cantos de alguns rostos) ainda que levemente cartunescas, e os cenários carregam marcas evidentes de abandono. O estilo remete ao realismo cru de antigas ilustrações jornalísticas, quase como registros de época. Quase 60 anos depois de seu lançamento na Ásia, não é exagero algum afirmar que a obra envelheceu com muita dignidade.

Quando o boxe finalmente entra em cena no mangá, o esporte não surge travestido de redenção automática. As sequências de luta impressionam muito pelo peso emocional. Joe luta (ainda fora dos ringues) como um sobrevivente - sem técnica refinada e com fúria acumulada. Cada golpe ensinado carrega anos de negligência social, de infância interrompida e de portas cerradas. O ringue é pavimentado pelos seus criadores nessa apresentação aos personagens que irão nos acompanhar pelos próximos volumes como uma extensão das ruas.
É nesse percurso tortuoso que surge Danpei, o homem disposto a ajudar Joe mas que acaba sendo desprezado por ele. Um ex-boxeador frustrado, envelhecido pela própria incapacidade de vencer, que deposita no garoto não apenas esperança esportiva, mas a chance de reparar a própria história. Joe rejeita essa ajuda com violência verbal e física. Aceitar a mão estendida por Danpei significaria aceitar também ser moldado por outro fracassado, alguém que representa uma sociedade que sempre virou as costas para ele. Danpei, por sua vez, insiste, projetando em Joe tudo aquilo que não conseguiu ser. A relação é desconfortável, cheia de arestas e, justamente por isso, absurdamente humana.

A jornada apresentada aqui subverte a ideia clássica que possamos ter sobre heróis. Joe recusa o chamado, pisa nas oportunidades e se afunda deliberadamente na lama. O mangá entende que, para muitos jovens marcados pela exclusão, a palavra “destino” soa mais como ironia do que como promessa. O leitor é convidado a observar esse processo com paciência, como um cronista que sabe que algumas histórias sangram como um corte no supercílio antes de fazer algum sentido.
A verdade é que o primeiro dos 10 volumes que estão sendo publicados pela New Pop é menos sobre boxe e mais sobre não pertencer. Um retrato seco da juventude que cresce sob os holofotes das promessas, porém sem tutela ou um amanhã garantido. Ashita no Joe, já no primeiro round, coloca o protagonista diante do leitor com a certeza de que até os menos versados na leitura de mangás serão nocauteados.
Gostou do nosso conteúdo? Que tal apoiar o Yellow Talk? O Yellow também é podcast e canal no YouTube, e seu apoio pode ajudar o nosso trabalho a crescer cada vez mais. A partir de R$2,00 você já vai estar contribuindo para manter nosso site no ar. Para dar o seu apoio, basta clicar AQUI.




Comentários