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  • Foto do escritorCarlos Pedroso

Pré-venda e a cultura do consumo rápido

Esses dias me peguei navegando pelo Instagram quando me deparei com uma campanha de uma editora que tem menos de 4 anos de existência, falando sobre a importância da pré-venda para a tiragem de quadrinhos. Essa divulgação me acendeu um alerta e me fez questionar: por que diabos uma editora se propõe a lançar um quadrinho focado apenas na pré-venda? Por que não focar no ciclo de vida do produto? Por que não investir em manter o quadrinho em evidência por mais tempo?



Bom, agora vamos aos fatos. É muito comum algumas editoras concentrarem todos os esforços de divulgação em pré-vendas, quase esquecendo da obra depois do lançamento. Esse comportamento tem se tornado mais comum do que imaginamos. Aí que vem meu ponto: quer dizer que após lançado o quadrinho não tem mais valor? Eles simplesmente não existem ou não engajam mais? Essas questões têm sido pertinentes. É comum vermos colecionadores enchendo seus carrinhos de compras na Amazon para comprar produtos com 30% de desconto na pré-venda, com medo de que os produtos desapareçam dos estoques. Como se os quadrinhos nunca mais fossem ficar disponíveis e fossem desaparecer. Será mesmo necessário esse comportamento?



Vejo que essa cultura se instalou aqui no Brasil depois que editoras como Thanos e Ultron passaram a atuar e divulgar seus quadrinhos como algo que precisa ser adquirido antes de todos, que eles são imperdíveis e que se você não comprar na pré-venda, vai ficar sem. Esse comportamento tem influenciado cada vez mais a quantidade de lançamentos de quadrinhos. Todos os meses temos mais de 5 ou 6 quadrinhos lançados por editoras e, no mês seguinte, eles são esquecidos como uma meia velha no quarto. Esse modelo tem triturado os lançamentos, não abrindo espaço para discussões sobre as obras, pois todos os dias há algo novo na vitrine. Faça uma reflexão: você lembra dos quadrinhos lançados em janeiro, há apenas cinco meses? Pois é. Como um mercado assim se sustenta?


Esse modelo me leva a uma pergunta: não seria mais fácil continuar investindo nos quadrinhos após o lançamento? Será que um quadrinho lançado em janeiro já atingiu todo o seu potencial de venda? Vamos olhar pela perspectiva dos livros. Hoje temos livros sendo republicados que vendem milhares de cópias e continuam no topo das vendas por anos. Por que com os quadrinhos isso não pode funcionar? Eu vejo que a curva de vida útil dos quadrinhos está cada vez mais curta, e o tempo de maturação não existe mais. Para manter esse mercado, as editoras acabam recorrendo à boa e velha promoção, com descontos cada vez mais atrativos. No entanto, mesmo com esses descontos, não existe um trabalho de divulgação sobre obras com mais de um mês de existência. Para fazer uma comparação com modelos bem-sucedidos, gosto de citar a editora Nemo, que investe na divulgação de todo o seu catálogo, não se concentrando apenas nos lançamentos. Esse comportamento instiga os leitores a estarem sempre conhecendo suas obras.



Não estou aqui dizendo como as editoras devem conduzir seus trabalhos, estou aqui falando que esse modelo predatório de lançamentos e mais lançamentos acaba prejudicando os leitores, que ficam desesperados em acompanhar todos os lançamentos e acabam esquecendo que uma obra em quadrinhos pode ser atemporal e deve ser valorizada não apenas no seu lançamento.


É evidente que a indústria dos quadrinhos tem uma grande ênfase nos lançamentos mais recentes. As editoras investem significativamente em divulgar e promover as pré-vendas e os lançamentos mais recentes, muitas vezes deixando de lado obras mais antigas ou que já estão há algum tempo no mercado. Isso pode ser prejudicial para a diversidade e a longevidade das discussões e apreciação das obras. Uma obra em quadrinhos não perde automaticamente seu valor ou relevância após o lançamento inicial. Assim como livros, filmes ou outras formas de arte, os quadrinhos podem ter um impacto duradouro e continuar a atrair leitores e gerar discussões mesmo após meses ou anos de seu lançamento original.


Infelizmente, essa mentalidade de "novidade" e "lançamento" acaba criando uma cultura em que as obras mais antigas são deixadas de lado, como se não fossem mais relevantes. Isso pode ser frustrante para os fãs e leitores que desejam explorar obras mais antigas, descobrir novos artistas ou revisitar histórias clássicas. É importante que as editoras e a comunidade dos quadrinhos incentivem a discussão e a valorização de obras que não são necessariamente lançamentos recentes. Isso pode ser feito mediante campanhas de marketing e divulgação contínuas, eventos temáticos, resenhas e recomendações de obras mais antigas, entre outros meios. Ao reconhecer a atemporalidade e o valor contínuo das obras em quadrinhos, podemos construir um mercado mais diversificado, onde tanto os lançamentos recentes quanto as obras mais antigas possam coexistir e ser apreciadas. Isso beneficia tanto os leitores ávidos por novidades quanto aqueles que desejam explorar e desfrutar de obras que já resistiram ao teste do tempo.


Termino este texto com uma reflexão sobre esse mercado de pré-vendas: quantos quadrinhos você comprou na pré-venda que, um ou dois meses depois, já estavam mais baratos? E quanto mais barato ficou após seis meses? Será que vale a pena continuar lançando quadrinhos sobre quadrinhos e esquecendo do que ainda tem potencial para conquistar novos leitores?

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