Nada floresceu em 99 e o impacto da infância na vida adulta
- Carlos Pedroso
- há 23 horas
- 2 min de leitura
É estranho pensar que a infância guarda tanto os melhores quanto os piores momentos de nossas vidas. É nela que sonhamos e acreditamos em tudo, mas também é nesse período que formamos alguns dos traumas mais profundos, que carregamos pelo resto da vida.

É a partir dessa premissa que me baseio para falar de Nada Floresceu em 99, um quadrinho simples, porém tocante, que me fez revirar memórias em busca de fragmentos da minha própria infância. A obra apresenta um enredo aparentemente simples, mas que carrega uma reflexão poderosa: pode um único dia marcar toda uma infância? É por esse fio que a trama se desenrola, enquanto Djeison e Eduardo nos conduzem pela história de seu protagonista, que parece revisitar a própria vida, imaginando como tudo poderia ter sido diferente.

Embora a obra brinque com diferentes linhas temporais, os autores fazem isso de forma sutil, sem comprometer o entendimento da narrativa. Essa alternância confere à história, ao mesmo tempo, peso e leveza. Ao acompanhar as memórias do protagonista, percebemos que, apesar de a trama caminhar para algo mais misterioso com o desaparecimento de um amigo e a constante sensação de que algo místico possa ter ocorrido, isso acaba sendo secundário. O que realmente importa é a vivência daquele dia pelos olhos de Rafael, que nos permite compreender como seus laços foram forjados e como a culpa, muitas vezes, persiste até a vida adulta. Assim como os traumas da infância: estão sempre ali, mesmo quando aprendemos a escondê-los bem.
Nada Floresceu em 99 é a antítese da ideia de que tudo pode florescer quando bem cuidado e bem regado, seja uma amizade, um amor ou até mesmo uma história que inventamos para nós mesmos acreditarmos. Todos os amigos pelos quais um dia nos culpamos por não estarem mais ao nosso lado talvez também carreguem essa mesma culpa. Essa antítese quebra expectativas e nos conduz por um caminho que pode frustrar ou, dependendo de como se inicia a leitura, revelar que o “jogo” da infância nunca termina. Ele permanece em nós e, em algum momento, pode fazer toda a diferença em uma vida repleta de frustrações e conquistas.
Nada Floresceu em 99 é uma obra forte, que trata a infância não como uma fase passageira, mas como um fragmento essencial do que somos hoje. Tudo o que vivemos ao longo do caminho nos construiu ontem, hoje e amanhã. E, sim, um único dia pode mudar tudo. Ao final, o que resta são as memórias do que foi ou do que poderia ter sido.
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Já disse Quintana, "o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente".
Nossa infância transborda até o agora de cada dia.