Eu, Dragão - uma HQ sobre memória e consequências
- Ronaldo Gillet
- há 23 horas
- 4 min de leitura

A infância da gente abre portas que a vida adulta costuma fechar sem aviso prévio. Lá pelos seis, sete anos, existia uma certeza muito simples dentro de mim, a de que eu ainda ia convencer o Tiamat, de Caverna do Dragão, a virar meu amigo e sair voando comigo por aí. A verdade é que eu olhava pro vilão em forma de dragão nas manhãs de descanso, em frente à TV, e não via nenhum tipo de ameaça nele, e sim a companhia ideal pra um moleque fissurado em seres alados. Era um tipo de relação que só fazia sentido naquele momento da vida, quando a imaginação não pedia licença pra existir.

Com o tempo, outros nomes foram ocupando esse espaço na minha prateleira dracônica como Banguela, Smaug e Shenlong (esse eu gosto tanto que tenho ele tatuado nas costas). Cada um deixou uma marca diferente, mas todos me ajudaram a moldar meu olhar de um jeito mais que especial pra universos de fantasia. E talvez seja por isso que ‘Eu, Dragão – A Saga’ tenha mexido tanto comigo. A obra me trouxe de volta pra um lugar de conforto, mas por outro caminho. Não pelo encanto das criaturas, e sim pelo que sustenta o mundo em que elas existem. Publicada no Brasil pela editora Comix Zone, a HQ se apoia nas relações de poder, nas escolhas difíceis e nas consequências que surgem a partir do momento em que são feitas. É aí que a trama encontra seu eixo e se sustenta tudo com firmeza.

Lançada originalmente em 2015 pela Glénat, a obra carrega a assinatura de Carlos Giménez, e isso já aparece no controle que o autor tem sobre a narrativa. Existe um cuidado claro na construção do mundo, na forma como as informações chegam e na maneira como o leitor precisa participar desse processo. Entrei na leitura entendendo que não teria tudo explicado de imediato, e isso fez uma diferença enorme na forma como acompanhei a história.
O contraste inicial já estabelece o tom da narrativa. Dentro do castelo de Rosentall, o aniversário do rei Belmonth segue em clima de celebração, sustentando a ideia de um reino sob controle. Fora dali, o cenário aponta em outra direção. Um exército se organiza, o vulcão Ferona dá sinais de atividade e a artista circense Valka enfrenta um parto cercado por incertezas, enquanto uma doença se espalha. Tudo acontece ao mesmo tempo e constrói uma tensão que atravessa a história.
Essa sensação de segurança se rompe à medida que os acontecimentos avançam. O vulcão Ferona passa a agir como um aviso constante, o parto de Valka se transforma em um ato de resistência e os movimentos políticos ganham força dentro e fora do castelo. A narrativa costura esses elementos de forma contínua, unindo disputas de poder, forças naturais e o destino de uma linhagem que carrega um peso próprio. Em Rosentall, a mudança se impõe aos poucos, até se tornar inevitável.

No começo, a leitura me causou um certo estranhamento. Muitos personagens, vários núcleos e pouca orientação direta (lembrando uma construção novelizada) são elementos que geralmente me provocam um certo bloqueio. Mas, com o avanço das páginas, as conexões começaram, finalmente, a surgir. Os interesses se tornaram claros, os conflitos ganharam forma e cada personagem passou a ocupar um espaço definido dentro da trama. A partir desse momento, o ritmo se estabeleceu e a leitura se sustentou com mais fluidez.
Do início ao fim do quadrinho, o tratamento dado às relações de poder também é algo que chama muito a atenção. Quem governa toma decisões sob pressão, expõe fragilidades e lida com alianças metamorfoseadas. Além disso, o desgaste se constrói a partir de pequenas falhas que se acumulam e ampliam o impacto dos acontecimentos e isso dá à narrativa um peso maior, porque tudo segue uma lógica interna coerente.

O narrador reforça essa estrutura ao conduzir a história com um olhar de memória. Os acontecimentos surgem como dejavús, o que direciona a leitura e cria uma sensação constante de consequência. A arte acompanha esse processo com força. Os cenários apresentam detalhes que ampliam a percepção do espaço, os personagens comunicam intenções nos gestos e nos olhares e cada quadro contribui para a construção do ambiente. Em vários momentos, tive a sensação de que aquele mundo continuava existindo além das páginas, algo que me remeteu diretamente às experiências que vivi em minha infância, quando tudo parecia ter continuidade fora da tela da TV.
O tempo da narrativa segue um ritmo contínuo, permitindo que cada elemento se desenvolva e ganhe impacto dentro do conjunto. Isso valoriza o percurso da história e reforça o peso das decisões tomadas ao longo do caminho. Quando estive próximo de concluir a leitura, percebi que ‘Eu, Dragão’ é um quadrinho que organiza seus elementos com consistência. A obra trabalha a fantasia a partir das relações e das consequências, construindo uma narrativa que se sustenta no que acontece entre os personagens. E, no meio disso tudo, ficou claro pra mim que aquela conexão antiga com dragões nunca desapareceu. Ela só encontrou novas formas de existir.
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