top of page

Estrangulados pela Mão Invisível: Horror, Quadrinhos e Política

  • Foto do escritor: mutanteliterario
    mutanteliterario
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

“O capital é um parasita, um vampiro insaciável, uma epidemia zumbi; mas a carne viva que ele transforma em trabalho morto é a nossa, os zumbis que ele produz somos nós.”

(Mark Fisher, Realismo Capitalista, P.28-29)


ree

Eu sou um grande defensor de uma arte que possa, ao mesmo tempo, entreter e levantar reflexões políticas e sociais.


É claro que isso pode ser feito de várias formas diferentes. Star Wars, Star Trek, Avatar, Ruptura são exemplos de produções artísticas que levantam reflexões políticas de formas variadas e — alguns argumentariam — de forma indireta.


Mas existe um valor em ser direto, em falar na lata, botar o dedo na ferida. Nem sempre a sutileza é a melhor alternativa, e o pessoal do Molotov HQ, junto com a Ruptura Editorial, parece dominar essa abordagem em Contos da Mão Invisível: Horrores do Capital.


A coletânea de contos de horror, escrita por Victor Zanellato e que conta com arte de Kris Zullo, Lalo Bizarro, Murilo Fernandez, Renata C. B. Lzz e Diogo Mendes, é uma bicuda no estômago de qualquer um.


Sempre parti da lógica de que a arte tem um potencial imenso de comunicar idéias, sentimentos, experiências e conceitos de forma muito única. E confesso que sempre fiquei confuso com a galera do “deixem a política longe dos meus quadrinhos/séries/filmes/jogos”.


Sinto que isso é uma forma indireta de pedir para deixar essas mídias burras, confortáveis e principalmente limitadas.


Ao falar sobre esse movimento que pede para retirar política dos quadrinhos, o quadrinista Mark Russell, criador de obras como Nem Todo Robô, O Retorno do Messias, Rumpus Room e que já escreveu personagens como Batman, Superman e Os Flintstones,

afirma:


Mark Russell
Mark Russell





Lógico que uma arte que entretém, diverte e faz a gente viajar para outros lugares é extremamente importante, mas, se além disso, tenho a opção de tirar uma reflexão interessante, sinto que só lucrei.


E é aqui que Horrores do Capital brilha, uma obra composta por artes incríveis que mudam a cada história, histórias extremamente interessantes e pertinentes para a nossa realidade e que exploram o gênero horror de forma brilhante.


Estamos falando de uma coletânea que se propõe descaradamente a falar sobre questões políticas, mas consegue fazer isso sem abrir mão de te entreter, te assustar, te fazer querer ler mais e te engajar com uma arte fora de série.


Se isso não fosse o bastante, no final de cada conto você tem sempre um texto — à la Contos da Cripta — do próprio Victor Zanellato, no qual ele comenta sobre o processo de criação, o contexto no qual surgem essas histórias e a sua relação com elas.


Victor Zanellato
Victor Zanellato

“nesse trabalho coloquei todos os medos, angústias, e experiências terríveis que senti intensamente por um período da minha vida, que continuam até hoje e afetam não só a mim, mas a todos - guardada a particularidade de cada indivíduo, seu contexto social e econômico - afinal são problemas coletivos, sintomas do capitalismo.”

(Victor Zanellato)




Um grande triunfo da obra é a forma como ela se propõe a abordar temas que são tão comuns a todos nós. Muitos de nós, da classe trabalhadora, temos aflições sobre o futuro, sobre aposentadoria, se vamos poder nos aposentar e em que condições vamos nos aposentar.


Acredito que muitos de nós já passamos por frustrações e perdemos tempo da nossa vida em transporte público de má qualidade, abarrotado, sem manutenção, sem conforto, sendo que não precisava ser assim. Moramos em cidades com pessoas vulneráveis, sem moradia, sem apoio, sem estrutura.


Quantos de nós estamos constantemente ansiosos por estarmos em um trabalho horrível, em condições de trabalho lamentáveis e sem perspectiva para um futuro melhor, mas aguentando porque temos que pagar as contas, aluguel, lazer?


Cena do filme They Live
Cena do filme They Live

Estes são alguns dos temas que a obra se propõe a refletir através do gênero horror nos quadrinhos, e convenhamos que nada disso é novidade. Madrugada dos Mortos, Corra!, Us, O Homem Invisível, They Live, It Follows, Invasores de Corpos: o gênero horror é também crítica social e uma ótima ferramenta para debater temas urgentes da nossa sociedade.




Em entrevista com Jessie Gender, escritora, cineasta, ativista e youtuber focada em ficção científica e cultura pop sob uma perspectiva feminista e queer, ela afirma:


Jessie Gender
Jessie Gender




Contos da Mão Invisível: Horrores do Capital é uma obra com muito a dizer, um trabalho feito para engajar com seus leitores e que escolhe fazer isso de uma forma muito eficiente. É uma obra que mostra como os quadrinhos brasileiros tem potência, e como a arte pode navegar entre a ficção e o cotidiano.


Vivemos em uma sociedade que pune de forma cruel aqueles que não têm os bens materiais necessários, onde conforto, saúde, educação, lazer, cuidado e apoio são condicionados ao valor que podemos pagar.


Vivemos em uma sociedade em que ser pobre é uma condição, uma doença, algo que merece ser punido, mesmo que a responsabilidade dessa pobreza não seja de quem é pobre.


Vivemos numa sociedade que depende da existência dessa pobreza ao mesmo tempo em que a pune, que castiga os trabalhadores. Contos da Mão Invisível: Horrores do Capital nos faz olhar para a face de uma realidade que, muitas vezes, somos educados a ignorar, mesmo ela sendo a nossa realidade.

 
 
 

Aqui a gente fala sobre a cultura pop com bom humor e acidez na medida certa. Trazemos pautas que realmente importam e merecem ser discutidas.

FIQUE LIGADO NASREDES SOCIAIS

Compre pelo link e nos ajude

AMZN_BIG.D-8fb0be81.png

ASSINE

Assine nossa newsletter e fique por dentro de todo conteúdo do site.

Obrigado pelo envio!

© 2025 YELLOW TALK 

bottom of page