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  • Foto do escritorRonaldo Gillet

Anatomia de uma Queda: Você decide como termina esse filme de tribunal



Se Anatomia de uma Queda (Anatomie d’une Chute) arrematasse o Oscar de melhor filme em 2024 teríamos uma grande surpresa, pelo simples fato de que, nesse improvável caso, o vencedor seria o melhor filme dos últimos tempos que (quase) ninguém assistiu. Chega a ser cruel testemunhar a ausência de debates (exceto pela crítica especializada) acerca da obra dirigida e co-roteirizada por Justine Triet. Arthur Harari também assina o roteiro.

Com atuações que beiram o impecável (destaque para o jovem Milo Machado Graner), e carregando o sensacionalismo midiático como pano de fundo - sob uma perspectiva de que sempre estamos sendo observados, cobrados e sujeitos a sermos úteis o tempo todo na sociedade contemporânea - o filme flui como água corrente ao longo de suas duas horas e meia de duração. Não à toa, faturou a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2023.



O filósofo e historiador francês Michel Foucault examinou muito bem o papel da vigilância e do poder na sociedade. Nesse contexto, não é exagero dizer que, em um paralelo com a obra literária foucaultiana "Vigiar e Punir", temos uma produção cinematográfica que discute as dinâmicas de controle social e como as estruturas de poder influenciam o comportamento humano.

Mergulhando na trama do filme, a primeira cena, a cena de abertura não economiza em proporcionar um desconforto social. Enquanto se deleita com um copo de vinho, a escritora Sandra Voyter (interpretada por Sandra Hüller) revela sua completa indiferença aos interesses da pesquisadora Zoé (Camille Rutherford). Em um jogo ácido, Sandra não apenas ignora as perguntas, mas inverte o papel, transformando o diálogo em um desfile de desdém, interrogando Zoé sobre suas preferências como se estivesse acima de qualquer consideração.



A exposição da solidão de Sandra em sua mansão isolada nas montanhas nevadas francesas é apresentada como se fosse uma conquista, um troféu de isolamento elitista. Vive rodeada por marido e filho, mas a cena sugere que a verdadeira companhia de Sandra é sua própria presunção, enquanto ela se deleita em seu próprio teatro pessoal de superioridade. Uma abertura que, apesar de todo seu cinismo, não deixa de ser um espetáculo de egocentrismo e frieza bem executado pela cineasta.

A pouco envolvente conversa entre Sandra e Zoé é abruptamente cessada pelo estridente volume de uma versão instrumental da música P.I.M.P., de 50 Cent, que ecoa incessantemente do sótão. Lá, encontramos Samuel (Samuel Theis), o "dedicado" marido da escritora, aparentemente engajado em uma reforma que compete diretamente com a paciência do público. Sandra, em um ato de misericórdia - até mesmo com quem assiste ao filme -, decide encerrar a entrevista, solicitando que ela seja retomada em um momento mais propício. Ela sobe as escadas, deixando-nos a imaginar se as ferramentas do marido são dispositivos para a desconstrução do nosso próprio bom senso.

Nesse ínterim, a câmera de Justine se volta para o filho do casal, Daniel, durante um passeio pela neve na companhia de seu fiel cão guia Snoopy. Uma pausa necessária para que possamos apreciar a sutileza da cinematografia, enquanto o cão guia lidera não apenas Daniel, mas também o público ao que virá a seguir.

O clímax, por assim dizer, se dá entre esses dois episódios. Quando Daniel retorna à residência, encontra o corpo do pai estendido sobre a neve. O vermelho em profusão na cena não deixa espaço para sutilezas - a vida do corpo inerte se esvai em pequenos riachos de sangue, como se a narrativa decidisse nos afogar em uma metáfora visual de sua própria decadência. A partir deste acontecimento, somos agraciados com o início da suposta "anatomia" prometida pelo título.

Em uma tentativa um tanto ousada, Anatomia de uma Queda mergulha de cabeça na confusão existencial, entrelaçando uma investigação policial - que por vezes parece mais um esforço para decifrar um enigma insondável - com as camadas dramáticas da vida (quase) privada de um casal que decidiu se isolar por uma saúde mental inalcançável.

É preciso dizer também que Sandra Hüller e Milo Machado Graner se atiram de cabeça na insanidade do enredo, abraçando-nos com incertezas e reflexões tão sutis quanto um soco no estômago sobre a absurda lógica por trás dos eventos. Anatomia de uma Queda é como um quebra-cabeça montado no escuro, onde as peças parecem não se encaixar, mas a beleza reside na desordem calculada.

E o Oscar 2024?



A produção apresenta méritos que poderiam, sem dúvida, render-lhe o cobiçado Oscar de Melhor Filme em 2024. No entanto, Oppenheimer permanece como o franco favorito em uma corrida onde o poder do marketing acaba por se tornar um fator preponderante para os anúncios dos premiados.

Na anatomia do Oscar, temos uma queda que, mesmo longe de ter sido calculada, mereceria não apenas uma indicação, mas um salto direto para o pódio do evento cinematográfico mais prestigiado do planeta.


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