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A Guerra dos Gibis 2 traz a perseguição aos quadrinhos durante a Ditadura Militar

  • Foto do escritor: Ronaldo Gillet
    Ronaldo Gillet
  • há 1 hora
  • 5 min de leitura

Quando se fala em censura durante a Ditadura Militar no Brasil, quase sempre surgem as mesmas imagens. Músicas proibidas, peças interrompidas, jornalistas perseguidos, livros apreendidos e artistas obrigados a conviver sob uma constante vigilância do Estado. Menos lembrada, porém, é uma batalha travada nas bancas de jornal, nas distribuidoras e nas pequenas editoras espalhadas pelo país. Uma guerra que teve como alvo algo as histórias em quadrinhos.


É exatamente pra lançar um foco de luz nesse capítulo pouco explorado da história brasileira que chega em julho de 2026 às livrarias 'A Guerra dos Gibis Volume 2 - Imprensa, mangás, pornografia, comunismo e censura na ditadura militar' (Clique aqui pra comprar na pré-venda). Trata-se do novo trabalho do jornalista e pesquisador Gonçalo Junior, publicado pela editora Conrad.


O lançamento dá continuidade direta ao premiado A Guerra dos Gibis, obra que se tornou referência ao investigar a formação do mercado editorial brasileiro de quadrinhos e a cruzada moral que, entre as décadas de 1930 e 1960, tentou transformar os gibis em inimigos da infância e da educação tupiniquim. Agora, Gonçalo amplia o espectro para um período ainda mais delicado da história do país, décadas em que os militares ocuparam o poder e transformaram a vigilância dos costumes em política estatal.


A proposta do livro é fascinante porque desmonta uma ideia simplista sobre a censura brasileira. Ao contrário do que muitas vezes se imagina ou é encontrado em pesquisas mais rasas, a repressão não estava preocupada somente com os discursos políticos explícitos. Em diversos momentos, sexo, comportamento e liberdade individual foram tratados como ameaças tão perigosas quanto qualquer panfletagem revolucionária.


O cenário internacional ajuda a compreender essa lógica. A chamada Revolução Sexual dos anos 1960 alterou profundamente as relações sociais em inúmeros territórios globais. A popularização da pílula anticoncepcional, os debates sobre liberdade feminina e a contestação de valores tradicionais provocaram reações intensas entre grupos conservadores. No Brasil governado pelos militares, essas transformações também passaram a ser vistas com enorme desconfiança.


Nesse contexto, revistas que exibiam nudez ou abordavam sexualidade tornaram-se alvos preferenciais de quem comandava o país. Para além do rótulo de publicações de entretenimento, esses materiais passaram a ser encarados semioticamente como símbolos de uma suposta degradação moral capaz de abrir caminho para ideias consideradas subversivas. Em uma das ironias mais curiosas da história brasileira, pornografia e comunismo passaram a ocupar o mesmo campo de batalha imaginário construído pelos defensores da ordem e dos bons costumes.

É a partir dessa atmosfera sombria que Gonçalo Junior reconstrói as trajetórias de duas editoras fundamentais para entender aquele período: a Edrel, em São Paulo, e a Grafipar, em Curitiba. Para muitos leitores contemporâneos, esses nomes talvez pareçam não muito comuns, porém, ambas desempenharam papel decisivo na expansão dos quadrinhos brasileiros durante os anos 1970. Foram espaços de experimentação artística, de ousadia editorial e de resistência cultural em um momento em que qualquer passo fora do padrão imposto podia despertar a atenção das autoridades.


As histórias envolvendo seus fundadores, Minami Keizi e Claudio Seto, funcionam como fios condutores de uma narrativa muito mais ampla. Por meio de suas experiências, o livro revela um sistema de perseguição que atingiu não somente editores, mas também distribuidores, jornaleiros, roteiristas, ilustradores e profissionais que dependiam economicamente daquele mercado.


O resultado é um retrato complexo de um Brasil onde a defesa da moral servia frequentemente como justificativa para mecanismos de controle social. Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa é mostrar que a censura não operava apenas através de decretos ou decisões oficiais. Muitas vezes esse autoritarismo se manifestava de maneira difusa, envolvendo apreensões, pressões comerciais, ameaças e interpretações arbitrárias das normas vigentes. O medo acabava funcionando como uma ferramenta tão eficiente quanto a própria legislação.


Ao mesmo tempo, o livro demonstra que a resistência não veio apenas das pequenas editoras independentes. Grandes grupos de comunicação também participaram desse embate. Empresas como Abril, Bloch e Três desafiaram limites impostos pelo regime ao lançar revistas que exploravam comportamento, sexualidade e novos costumes. Publicações como Playboy, Status, Ele Ela e Nova ajudaram a transformar o mercado editorial brasileiro, mesmo sob um clima de constante vigilância.


Essa perspectiva amplia significativamente o alcance da obra. Embora o título destaque os quadrinhos, o livro acaba funcionando também como uma investigação sobre imprensa, comportamento e liberdade de expressão. É uma análise que examina como a sociedade brasileira lidou com mudanças culturais profundas em um período marcado pelo cerceamento da liberdade.


Outro mérito está na capacidade de a obra recuperar retratos de personagens frequentemente esquecidos pela historiografia tradicional. Enquanto políticos, militares e líderes de movimentos sociais costumam ocupar o centro das narrativas sobre a ditadura, Gonçalo direciona o olhar para profissionais que atuavam nos bastidores da cultura popular. São homens e mulheres que ajudaram a construir a indústria editorial brasileira, mas cujas histórias raramente aparecem nos livros escolares ou em quaisquer tipos de documentários.


Não é nenhum exagero afirmar que esse resgate se tornou uma marca registrada da trajetória do autor. Jornalista de formação, Gonçalo Junior construiu uma carreira dedicada a investigar personagens, movimentos culturais e episódios negligenciados da história brasileira. Ao longo de mais de cinquenta livros publicados, transitou por áreas tão diversas quanto música, televisão, literatura, cinema e quadrinhos, sempre com atenção especial aos detalhes documentais e à pesquisa de longo prazo.


Exatamente por isso que essa experiência dá corpo às páginas de A Guerra dos Gibis Volume 2. O livro é resultado de cerca de duas décadas de investigação, reunindo documentos, entrevistas, fotografias e reproduções de capas que ajudam o leitor a mergulhar no contexto histórico retratado.


Com quase 600 páginas, a obra possui dimensão enciclopédica e, de acordo com seus idealizadores, seu valor não está apenas na quantidade de informações reunidas, mas na forma como o material ajuda a compreender debates que permanecem atuais.


Questões relacionadas à censura, ao controle dos costumes e aos limites da liberdade artística continuam presentes no cotidiano contemporâneo. Mudam os meios, os personagens e as plataformas, mas as disputas em torno daquilo que pode ou não ser publicado permanecem vivas.


A chegada desse material promete além do interesse dos pesquisadores ou dos colecionadores de quadrinhos. A obra se propõe também a auxiliar na compreensão de como o Brasil construiu suas relações com a cultura, a sexualidade e a liberdade de expressão ao longo das últimas décadas.


Se o controle da imaginação sempre foi e ainda é uma das ferramentas preferidas de qualquer projeto autoritário, a verdadeira guerra dos gibis é travada por quem defende o direito de contar histórias, desafiar costumes e ocupar espaço nas bancas, nas bibliotecas e na memória coletiva de um país.

A Guerra dos Gibis Volume 2 – Imprensa, mangás, pornografia, comunismo e censura na ditadura militar

Autor: Gonçalo Junior

Editora: Conrad

Formato: Físico

Dimensões: 16 x 23 cm

Páginas: 592

ISBN: 978-65-5803-489-6

Preço de capa: R$ 159,90

Lançamento: 15 de julho de 2026 Gostou do nosso conteúdo? Que tal apoiar o Yellow Talk? O Yellow também é podcast e canal no YouTube, e seu apoio pode ajudar o nosso trabalho a crescer cada vez mais. A partir de R$2,00 você já vai estar contribuindo para manter nosso site no ar. Para dar o seu apoio, basta clicar AQUI.

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