A Era dos Super-heróis no Cinema Morreu
- Carlos Pedroso
- há 19 horas
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Não gosto muito da expressão “cavaleiros do apocalipse”. Ela soa exagerada, dramática demais, quase preguiçosa. Mas, quando o assunto são os filmes de super-heróis, talvez seja difícil escapar desse tipo de imagem. Há algum tempo, vemos homens e mulheres de capa perdendo força nas grandes telas. Aquilo que antes parecia invencível começou a tropeçar. E tropeçar muito.

Desde Vingadores: Ultimato, talvez não tenhamos vivido novamente aquele sentimento coletivo de espanto, aquela sensação de que o cinema de heróis ainda era capaz de parar o mundo por alguns dias. Claro, houve exceções. Alguns filmes do teioso ainda arrastaram multidões às salas. A DC tentou encontrar seu caminho em meio ao próprio caos. A Marvel insistiu em manter sua máquina funcionando. Tivemos também a volta do Quarteto Fantástico ao centro das expectativas. Mas, no geral, o brilho já não é o mesmo.
E nem digo isso devido ao ultimo decadente lançamento de Super-Girl, que não vi. Digo isso o sentimeto de quem acompanhou essa era de mágia e alegria, a era das filas e conversas antes e depois dos filmes.
E talvez esse seja o ponto principal: nada dura para sempre.
O cinema já viu outros impérios nascerem, dominarem o imaginário popular e depois recuarem. Foi assim com os faroestes, que durante décadas representaram a alma aventureira de Hollywood. Foi assim com os brucutus dos anos 1980 e 1990, homens musculosos, armas enormes e frases de efeito. Foi assim também com os policiais urbanos dos anos 1990 e 2000, que pareciam traduzir a tensão de uma época. Todos tiveram seu reinado. Todos ocuparam o centro da cultura pop. Todos, em algum momento, deixaram de ser regra e voltaram a ser exceção.
Com os super-heróis, acontece agora o mesmo movimento.
Desde 2008, com a consolidação do Universo Cinematográfico da Marvel, ou até desde 2001, se considerarmos o impacto de X-Men e Homem-Aranha na virada do século, vivemos uma era de domínio absoluto das capas, armaduras, máscaras e símbolos luminosos. Eram lançamentos grandiosos, campanhas gigantescas, bilheterias monumentais e uma sensação permanente de evento. Cada filme parecia uma peça indispensável de um mosaico maior. Ir ao cinema era participar de uma conversa global.
Mas essa era passou.
Não necessariamente para sempre. O cinema, como toda arte popular, vive de ciclos, retornos e ressurreições. Mas, por enquanto, aquele domínio acabou. O que temos hoje são lançamentos mais escassos, produções irregulares, universos narrativos cansados e, principalmente, aquilo que mais preocupa qualquer estúdio: um público menos interessado. Não se trata apenas de discutir se os filmes são bons ou ruins, embora muitos deles tenham mesmo apresentado uma queda evidente de qualidade. A questão é mais profunda. O público cansou.
E quando o público cansa, não há multiverso que salve.
Durante muito tempo, havia uma espécie de boa vontade coletiva com os filmes de heróis. Mesmo quando uma produção não era perfeita, existia curiosidade. Existia expectativa. Existia vontade de acompanhar o próximo passo. As pessoas queriam saber qual seria o próximo filme da Marvel, qual personagem apareceria na cena pós créditos, se a DC finalmente conseguiria organizar seu próprio universo. Havia uma sensação de pertencimento. Assistir a esses filmes era fazer parte de algo.
Hoje, esse elo parece rompido.
O espectador já não entra automaticamente no jogo. Ele não aceita qualquer promessa de saga, qualquer ameaça cósmica, qualquer novo vilão anunciado como se fosse o fim de tudo. O público aprendeu a desconfiar. E, talvez pior, aprendeu a se desinteressar. Enquanto isso, outros gêneros ocupam espaço. O terror, por exemplo, vive um momento vibrante. Com orçamentos menores, ideias mais afiadas e uma relação mais direta com os medos contemporâneos, o gênero voltou a ocupar a crista da onda. Filmes que antes seriam tratados como apostas modestas passaram a gerar conversa, impacto e bilheteria. O público continua indo ao cinema. O que mudou foi o objeto do desejo.
Isso mostra que o problema não está no cinema. O cinema segue vivo. Há bons filmes, grandes produções e obras capazes de emocionar, provocar e surpreender. O que parece ter se esgotado é a crença automática no salvador do dia. A figura do herói invencível, cercado por efeitos digitais e frases calculadas, já não basta. O público quer mais do que espetáculo. Quer sentido. Quer risco. Quer verdade emocional.
As tramas superficiais, construídas apenas para movimentar franquias, já não encontram o mesmo abrigo. Muitos desses filmes parecem existir não porque há uma história urgente a ser contada, mas porque existe uma marca a ser preservada, um calendário a ser preenchido, um produto a ser mantido em circulação. E talvez seja aí que a magia tenha se perdido.
O cinema de super-heróis nasceu, em sua melhor fase, como promessa de encantamento. Ele nos convidava a olhar para cima, para acreditar que ainda havia algo extraordinário cruzando o céu. Mas, quando tudo se torna extraordinário o tempo inteiro, nada mais parece realmente especial. Quando todo filme ameaça destruir o universo, salvar o mundo passa a parecer apenas mais uma tarefa administrativa.
A era dos heróis no cinema morreu não porque os heróis deixaram de existir, mas porque deixaram de nos comover como antes. Eles continuam lá, com suas capas, seus símbolos e seus discursos sobre coragem. Mas o público, esse personagem silencioso e soberano, talvez já tenha saído da sala.
E, sem público, nenhum herói permanece de pé.




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