Rio: Uma visão conturbada da cidade maravilhosa
- Carlos Pedroso
- há 14 horas
- 6 min de leitura
Antes de tudo, preciso dizer: esse quadrinho é ruim. Não é ruim no sentido de “mal desenhado” — porque o traço até impressiona — mas é ruim no sentido de ser mais uma caricatura do Brasil vendida para gringo, mas vou tentar falar dele com o máximo de imparcialidade que eu conseguir. Afinal, esse título é, no mínimo, estranho pra mim. Durante a leitura, o desconforto, a raiva e, de certa forma, até um certo fascínio me levaram a um questionamento inevitável:
“Que porra o nosso cinema fez na cabeça desses gringos?”
Eu sei que, na real, nossos filmes não são culpados pela falta de noção que estrangeiros têm sobre nossa cultura e realidade, nossa aesthetic. Grande parte desse problema vem da forma como o próprio governo federal do Brasil, a União, vendeu nossa imagem: sempre muito centrada no Rio de Janeiro, com as mais gostosas “mulatas” quase nuas cobertas de plumas, ou no calçadão de Ipanema embalado pela chatíssima bossa nova, por um sambinha qualquer ou pela batida de funk mais xexelenta que aparece à mão.
Sim, tô ligado nisso.

Ainda assim, é impossível não notar como nossa imagem é vendida lá fora como algo insosso e colorido. Enquanto lia esse quadrinho em meados de 2023 — depois de conhecê-lo através do Thiago Ferreira, da Comix Zone, que comentou sobre ele — numa edição portuguesa, a pergunta que abriu esse texto veio martelar minha cabeça.
Contudo, como diria Chico Picadinho, vamos por partes: Rio originalmente saiu como uma tetralogia em quadrinhos na França roteirizada por Louise Garcia e ilustrada por Corentin Rouge publicados pela Glénat entre 2016 e 2019.
Seu primeiro volume Dieu Pour Tous / Deus Por Todos, que é o que manterei o foco, pois não quero entregar o resto, pois acho importante que a obra ainda assim seja lida, foi lançado no dia 20 de abril de 2016 e apesar de ter lido a primeira vez uma edição em português, levou-se quase 10 anos para que saísse no Brasil pela Comix Zone.
A história de Rio se desenvolve a partir de um núcleo muito específico. O ponto de partida é Rubeous — nome que, com acerto, foi transformado em Rubens — e, nesta primeira parte, sua irmã mais nova, Nina. Ambos nasceram na Favela do Beija-flor e, cedo demais, foram deixados à própria sorte. A tragédia se instala quando a mãe deles é brutalmente assassinada por Jonas, seu amante e um policial militar corrupto, cuja aparência mistura a imponência caricata do Professor Girafales com a intensidade de Milhem Cortaz em Tropa de Elite. Jonas exigia informações — já que ela atuava como X9 do cara — sobre quem assumiria o comando do tráfico de drogas na região no lugar de Don Juan, antigo chefe do tráfico, supostamente assassinado.
Então, após Rubeous — sim, ainda vou chama-lo assim por pura má vontade — presenciar o crime e quase ser assassinado pelo PM, as crianças são forçadas a fugir de Jonas, mas depois de serem chamados de “demônios” em uma igreja evangélica e pedirem esmola na rua, são “acolhidos” por Bakar e entram numa gangue de crianças infratoras para sobreviver nas ruas.

Mas sem saber, essa gangue de crianças, ficariam marcadas, por conta da Chacina da Candelária, crime que ocorreu no dia 23 de julho de 93.
Crime esse que aconteceu próximo à Igreja da Candelária, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. No caso, oito jovens moradores de rua que dormiam em frente à igreja foram assassinados à queima roupa por milicianos. Várias das outras setenta pessoas que dormiam nas ruas da região ficaram feridas com os disparos. Dentre indiciados, julgados e culpados, todos os responsáveis encontram-se atualmente em liberdade ou liberdade condicional.
Pouco antes da meia-noite, dois Chevettes com placas cobertas pararam em frente à Igreja da Candelária. Em seguida, os ocupantes atiraram contra dezenas de pessoas, a maioria adolescentes, que estavam dormindo nas proximidades da Igreja. Como resultado, seis menores e dois maiores morreram e várias crianças e adolescentes ficaram feridos. Segundo estudos realizados por associações ligadas à organização Anistia Internacional, quarenta e quatro das setenta pessoas que dormiam nas ruas daquela região perderam a vida de forma violenta. Todas as vítimas eram pobres e negras.
Por sorte — ou talvez por mera conveniência narrativa — Rubeous e Nina acabam sendo adotados por um casal de estadunidenses de nomes genéricos: Carolyn White e John “William Deffoe” White. A partir daí, passam a viver em Ipanema e frequentar colégios de playboy, cercados pela elite. No entanto, o trauma da morte da mãe e os perrengues da infância continuam a assombrar nosso protagonista, junto com uma série de acontecimentos que não revelarei aqui para não entregar toda a trama do gibi.
Admito que num primeiro momento, a obra me impressionou por conta das ilustrações do Corentin. Suas ilustrações são realistas, de traço bem definido e cores expressivas. Copacabana, a Igreja da Candelária, o Pão de Açúcar e outras particularidades do Rio são aqui retratados de forma sublime, permitindo ao afegão-médio uma visita ao Rio sem ter de pagar uma passagem de avião. Eu, sinceramente, achei que tanta acurácia se devia pelo fato do francês ter passado vindo pra cá e tal, mas depois que descobri que contando as 5 vezes que ele colou pra cá, não contavam nem um mês, me lembrei quem em 2016 já existia o Google.
Meu problema com Rio é o roteiro, digno de uma fanfic de Wattpad com aquele clima de “Brasil pra gringo ver”, embalado lá fora sob o rótulo de Brazilcore. E não é à toa: várias vezes me peguei incomodado com a visão enviesada e eurocêntrica dos autores. O mais irônico é que quem assumiu os roteiros, em teoria, deveria nos conhecer bem — afinal, é “uma de nós”.

Pelo que pesquisei, Louise Garcia nasceu em Niterói e cresceu no Rio, estudando num liceu internacional francês. Depois, fez universidade em arte, trabalhou em instituições culturais brasileiras e acabou indo pra França. Só que seu roteiro soa elitista pra caralho, quase como se fosse a visão de alguém da alta roda tentando impor sua leitura sobre os favelados. Ou pior: parece que não tinha nada de relevante a dizer, então misturou referências de dois ou três filmes brasileiros sobre favela, jogou no liquidificador e entregou pro desenhista acrescentar mais merda no texto.
A favela, na narrativa, aparece como brutal, violenta, pobre e crua — o que até tem um fundo de verdade — mas o modo como isso é mostrado bebe descaradamente da estética de Pixote: A Lei do Mais Fraco (Héctor Babenco), Cidade de Deus (Fernando Meirelles) e Tropa de Elite (José Padilha), tudo embrulhado numa aura mística e sobrenatural pra lá de problemática. Tanto que já começa com uma cena de impacto: uma mulher negra, nua, degolando uma galinha enquanto pede ao próprio Satanás que mate a mãe dos protagonistas.
Pra quem não conhece de fato as práticas de quimbanda, umbanda ou candomblé, pode até parecer um rito “normal”, já que o sincretismo religioso é parte da nossa cultura. Mas quem entende sabe o quanto isso é desrespeitoso. É tão ofensivo quanto enfiar um crucifixo no cu enquanto se grita “hosana nas alturas”.
Agora, falando sério: Rio poderia ter sido muito melhor trabalhado, lapidado como uma pedra até se tornar uma joia. A trama, na superfície, traz uma série de questões políticas, imagens de impacto e mensagens fortes — óbvias para nós —, como, por exemplo, a constatação de que será praticamente impossível para todas as crianças da favela escaparem de uma vida marcada pela pobreza ou pelo crime.
Ainda assim, há camadas éticas e morais bem delineadas, além da vontade de mudança que se manifesta na oposição entre personagens. Isso aparece em Rubens e Nina, na forma como reagem à adoção, mas é principalmente nas figuras de Bakar (sério, nunca vi ninguém chamado Bakar, kkk) e de Rato que encontramos diferentes posturas diante da mesma caminhada de vida. Rato carrega a malícia em estado bruto, perpetuada e alimentada ao longo do tempo — lembrando o Dadinho de Cidade de Deus. Já o pequeno Bakar, por outro lado, parece encontrar alguma alegria em viver e um sentido altruísta, sem desistir do sonho de um futuro melhor. Confesso que gosto dele, apesar desse nome horroroso.
A corrupção também é um alvo da narrativa, mas soa exagerada, especialmente com a nojenta ideia dos “salvadores brancos” misturada à trama. As ONGs aparecem como fachada para esquemas ilícitos, atuando como um dos motores do livro, mas sem grande impacto na jornada do protagonista.
Rio tenta ser uma leitura pesada. Não apenas por se concentrar em crianças, mas também por mostrar as poucas oportunidades de quem cresce na quebrada. O problema é que faz isso de forma estereotipada, enviesada, ainda que se proponha a abordar um tema diferente do habitual quando se trata de gibi europeu.
Se você for pegar, faça-o quando entrar em promoção ou pegue emprestado de algum maluco que, como eu, comprou essa bomba na pré-venda.

Toni, conhecido como le Fou, nasceu em 1987 em Timbaúba, município da Zona da Mata de Pernambuco. Cresceu na periferia da zona Sul de São Paulo, onde encontrou nas ruas e nos materiais escolares a base para desenvolver seu estilo artístico. Hoje, atua como ilustrador freelancer especializado em artes feitas com canetas esferográficas, explorando sua visão monocular para transformar limitações em potência criativa. Seu trabalho busca despertar sentimentos e sensações únicas em cada olhar que repousa sobre suas obras.




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