Rest in Pieces – O horror melancólico e a identidade visual de Karmarket
Em Rest in Pieces, o quadrinista taiwanês Karmarket reúne histórias de terror que transitam entre o grotesco, o surreal e o melancólico. Publicada no Brasil pela Editora Veneta, a coletânea apresenta um autor com uma imaginação bastante particular, que usa a força do seu trabalho para lidar com seus próprios medos.

A comparação com Junji Ito é um ótimo convite para conhecer o trabalho de Karmarket, mas ela não conta a história toda. Embora os dois compartilhem o gosto pelo estranho e pelo perturbador, Rest in Pieces tem uma atmosfera própria, que me chamou a atenção muito mais pela melancolia e pelovisual do que pelo choque.
Uma arte que fala por si
Uma das coisas que mais me chamou a atenção na leitura foi a arte de Karmarket. O trabalho com as hachuras é impressionante, criando profundidade, textura e uma sensação de volume que dá ainda mais força às imagens. As páginas são cheias de detalhes, que não existem apenas para impressionar visualmente, mas sim para contar a história.

Karmarket sabe muito bem quando deixar as imagens conduzirem a narrativa. Em vários momentos, não são necessárias tantas falas para transmitir uma sensação, estabelecer o clima de uma cena ou fazer o leitor entender o que está acontecendo.
Isso faz bastante sentido quando conhecemos um pouco das referências do autor. Além de Junji Ito e H. P. Lovecraft, Karmarket cita Moebius e Yoshiharu Tsuge entre suas influências. São nomes bastante diferentes entre si, mas que ajudam a entender o interesse do quadrinista por atmosferas marcantes, imagens que permanecem na cabeça e histórias que nem sempre precisam explicar tudo.
Em uma entrevista publicada pela própria Veneta, Karmarket conta que suas histórias costumam nascer de fragmentos: uma pessoa que passa na rua, um prédio ou até uma frase ouvida por acaso. Ele registra essas ideias e deixa que, com o tempo, elas se conectem até ganharem uma forma própria.
Acho interessante pensar nisso durante a leitura de Rest in Pieces. Na mesma entrevista, ele comenta que aprendeu a contar histórias inteiras em poucas páginas e até sem diálogos. É justamente uma das características que mais me chamaram a atenção na obra: a capacidade de usar as imagens para transmitir sensações e construir narrativas sem precisar explicar tudo ao leitor.
Entre boas ideias e histórias bem contadas
Como acontece com boa parte das coletâneas, algumas histórias funcionam melhor do que outras. Rest in Pieces tem contos que me chamaram muito mais a atenção, especialmente aqueles que partem de premissas interessantes e conseguem desenvolvê-las para além da ideia inicial.
É o caso de Apartamento para alugar, uma história sobre um prédio que prende as pessoas que entram nele por meio de ilusões. A premissa tem espaço suficiente para ser desenvolvida, trabalhando os personagens e a própria edificação.

O Senhor do Lago Salgado é outro conto bem interessante. A história acompanha o surgimento de seres, à primeira vista, mutantes em lagos e oceanos, ao mesmo tempo que a água do universo começa a secar. É uma combinação bastante inusitada, que vai estabelecendo conexões entre seus elementos e acaba construindo um conto mais desenvolvido do que eu esperava.
Essa última história também deixa bastante evidente a influência de Lovecraft, especialmente pela maneira como o horror se conecta a fenômenos que parecem muito maiores do que os próprios personagens. Existe uma sensação de estranheza diante de algo que não compreendemos completamente, como se a humanidade estivesse apenas começando a perceber a dimensão do problema.
Não gostei somente dessas duas, mas as escolhi como exemplos de histórias que mais me interessaram no livro. Gosto quando uma premissa instigante não fica restrita à ideia inicial e encontra espaço para crescer, criar conexões e desenvolver um universo próprio.
Nem todos os contos têm o mesmo impacto
Se, por um lado, algumas histórias se destacam pelo desenvolvimento, outras me deixaram com a sensação de que faltava alguma coisa. Em certos momentos, parece que alguns contos não tiveram espaço para serem desenvolvidos - como se faltasse algo.
O próprio conto que dá nome à coletânea, Rest in Pieces, me parece funcionar muito mais como uma experimentação e uma demonstração das possibilidades visuais do autor do que como uma história propriamente dita. Não que isso seja necessariamente um problema, mas, particularmente, prefiro os contos que permitem explorar melhor suas ideias.
Essa diferença de impacto faz parte da experiência de ler uma coletânea. Nem todas as histórias precisam funcionar da mesma maneira, e algumas podem despertar mais interesse pela atmosfera ou pelas imagens do que pela narrativa em si. Ainda assim, foram os contos que conseguiram equilibrar essas duas coisas que mais me interessaram.
Mais do que um novo Junji Ito
É difícil falar de Rest in Pieces sem mencionar Junji Ito, principalmente porque essa comparação aparece na própria divulgação da obra. E, sim, ela funciona como uma boa porta de entrada para despertar a curiosidade de quem gosta de terror nos quadrinhos.

Mas, considerando minha experiência (ainda limitada) com o trabalho de Ito — li Tomie, por exemplo —, senti que ele aposta ainda mais no grotesco.
Karmarket, por sua vez, me parece caminhar por um terror mais melancólico, romântico, surreal e contemplativo, no qual o desconforto não vem apenas daquilo que é monstruoso, mas também dos sentimentos que atravessam as histórias.
Isso não significa que um seja melhor do que o outro, muito menos que Karmarket precise se afastar de suas referências para provar seu valor. O que me interessa é perceber como ele absorve diferentes influências (ele cita também Stephen King) e as transforma em algo que tem personalidade própria.

E vale lembrar que Rest in Pieces também pode ser interpretado como um registro do desenvolvimento do quadrinista. As histórias reunidas no volume foram produzidas entre 2021 e 2024, acompanhando um período de experimentação com técnicas, enquadramentos e formas de narrar. É interessante perceber como esse processo já revela um artista com uma identidade visual bastante reconhecível.
Um posfácio que vale a leitura
Outro acerto da edição brasileira da Veneta foi incluir um posfácio do próprio autor. Gosto quando uma publicação abre espaço para que o artista fale sobre seu trabalho, porque isso ajuda a compreender melhor algumas escolhas e oferece uma perspectiva diferente depois da leitura.
No caso de Rest in Pieces, esse material ganha um peso especial. Conhecer um pouco mais das intenções e referências de Karmarket ajuda a enxergar as histórias para além de suas imagens grotescas, sem necessariamente eliminar as ambiguidades que fazem parte delas.
Também existe algo interessante em acompanhar um autor que ainda parece estar explorando os próprios limites. Mesmo com as diferenças entre os contos, a coletânea desperta a curiosidade para saber o que ele fará nos próximos trabalhos.
Vale a pena ler Rest in Pieces?
Sim, vale muito a pena. Mas não apenas pela comparação a Junji Ito.
O que mais me conquistou foi a maneira como ele utiliza a arte para construir atmosferas, transmitir sensações e contar histórias que transitam entre o horror, o surrealismo e a melancolia. Nem todos os contos têm o mesmo impacto, e alguns me deixaram querendo um desenvolvimento maior, mas os destaques da coletânea compensam essas oscilações. E o saldo é muito positivo.
Rest in Pieces me deixou com vontade de conhecer outros trabalhos de Karmarket. E acho que esse é um dos melhores resultados que uma leitura pode proporcionar: terminar um livro não apenas satisfeito com o que encontrou, mas também curioso para descobrir o que seu autor ainda tem a oferecer.
Se você gosta de quadrinhos de terror, de narrativas estranhas e de artistas que usam a linguagem visual para explorar caminhos pouco convencionais, vale ficar de olho nesse nome.
Rest in Pieces está em pré-venda pela Editora Veneta, com previsão de lançamento para 30 de outubro de 2026. A edição conta com 288 páginas em preto e branco e tradução de Peggy Yu.
É uma ótima oportunidade para conhecer um quadrinista que merece ser acompanhado. Você pode garantir seu exemplar AQUI.
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