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Pluribus: a individualidade sobrevive à distopia da perfeição?

  • Foto do escritor: Ronaldo Gillet
    Ronaldo Gillet
  • há 6 horas
  • 7 min de leitura

Há algo profundamente desconfortável em assistir a uma sociedade feliz demais. Durante boa parte da história da ficção científica, aprendemos a reconhecer a distopia por seus sinais mais evidentes, como cidades em ruínas, governos autoritários, vigilância permanente, violência extrema e máquinas ocupando o lugar dos seres humanos. O diretor e roteirista Vince Gilligan escolhe outro caminho em Pluribus, sua primeira série desde o encerramento de Better Call Saul. A narrativa nos apresenta um mundo que parece ter encontrado uma solução para boa parte dos problemas que costumavam produzir conflitos entre as pessoas. Há cooperação, cordialidade, disponibilidade e uma espécie de felicidade coletiva que deveria tranquilizar a todos. Carol Sturka, personagem interpretada por Rhea Seehorn, olha para tudo isso e sente medo. É exatamente esse desconforto que transforma a série em uma das experiências mais interessantes da televisão recente.

Eu assisti a Pluribus fora do hype. Entrei na série quando tive vontade, sem a menor necessidade de descobrir às pressas se a produção seria "a nova Breaking Bad" ou se existiam teorias aleatórias sobre o enredo espalhadas pela web. Aliás, esse distanciamento acabou sendo uma boa maneira de experimentar uma história que parece construída justamente contra a lógica da urgência. Gilligan permite que as situações em tela respirem, que os personagens observem antes de agir e que determinadas perguntas permaneçam sem resposta por tempo suficiente para se tornarem realmente interessantes.

Essa escolha talvez seja ainda mais significativa quando lembramos de onde Vince Gilligan veio. Antes de transformar Walter White em um dos personagens mais conhecidos da televisão, o roteirista trabalhou em Arquivo X, série que fez do mistério e do desconhecido uma linguagem narrativa. Depois vieram Breaking Bad, Better Call Saul e El Camino, obras em que personagens comuns eram homeopaticamente empurrados em direção a situações extraordinárias e precisavam conviver com as consequências das próprias escolhas. Gilligan passou boa parte da carreira investigando o que acontece quando uma pessoa é colocada diante de uma circunstância capaz de alterar sua percepção sobre quem ela é. Em Pluribus, ele leva essa pergunta para uma escala muito maior, afinal, o que acontece quando uma transformação sem precedentes alcança praticamente toda a humanidade ao mesmo tempo?

Carol Sturka é o ponto de entrada para esse mundo. A personagem permanece dona das rédeas de sua individualidade enquanto praticamente todos ao seu redor foram integrados a uma consciência coletiva. A premissa poderia resultar em uma ficção científica tradicional sobre invasão, resistência ou sobrevivência, mas Gilligan encontra uma alternativa mais sofisticada ao transformar a própria ideia de felicidade em objeto de suspeita. Primeiro, é preciso entender como enfrentar o fenômeno que alterou a humanidade e, depois, descobrir o que fazer quando as pessoas afetadas parecem satisfeitas com a própria condição.

Essa é uma das grandes ideias da produção, que ganha força porque a série evita transformar seus antagonistas em figuras convencionalmente ameaçadoras. O comportamento coletivo pode ser angustiante justamente porque parece, no mínimo, razoável. As pessoas continuam conversando, trabalhando, preparando comida, cuidando umas das outras e demonstrando afeto. Existe uma gentileza quase permanente no universo de Pluribus. Para Carol, entretanto, cada demonstração de harmonia representa também um lembrete de que algo fundamental foi retirado da experiência individual. Nesse sentido, quanto de alguém precisa desaparecer para que a convivência perfeita se torne possível?

O título oferece uma pista importante. Pluribus remete à expressão latina 'E pluribus unum', que significa "de muitos, um", frase que se tornou um dos lemas associados aos Estados Unidos. A inversão proposta pela série é poderosa porque ressignifica o conceito de união, normalmente apresentado como valor positivo, transformando-o em uma questão filosófica. Uma sociedade pode ser tão integrada que deixe de existir espaço para o conflito, para a discordância e até para a singularidade? Se todos concordam, continuam existindo indivíduos ou temos apenas partes de um organismo maior?

A pergunta lembra algumas das inquietações levantadas por autores que pensaram a relação entre indivíduo e sociedade, mas Pluribus não precisa transformar filosofia em discurso para fazer o espectador perceber e refletir sobre essa problemática. A série trabalha principalmente com a arquitetura de situações cotidianas. É possível, sem muito esforço, observar Carol diante de outras pessoas e compreender que o conflito está no comportamento delas, nos pequenos gestos, na maneira como falam e na tranquilidade com que aceitam uma realidade que, para a protagonista, um ser humano de mente e alma em frangalhos devido aos sucessivos traumas pelos quais passou em sua jornada, permanece insuportável. A ficção científica se mostra assertiva porque Gilligan compreende que uma ideia filosófica se torna muito mais poderosa quando pode ser experimentada por meio de uma personagem.

E poucas atrizes poderiam sustentar essa experiência melhor do que Rhea Seehorn. Depois de interpretar Kim Wexler em Better Call Saul, Seehorn abraça uma personagem que exige um registro completamente diferente. Carol é frequentemente obrigada a reagir mais do que falar e a observar mais do que explicar. O cansaço, a irritação, o medo e a desconfiança aparecem no rosto antes mesmo de serem transformados em diálogo. É uma atuação que depende de contenção e que combina perfeitamente com aquilo que Gilligan pensa para seus universos. A Television Academy reconheceu esse trabalho ao indicar Seehorn ao Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática, enquanto a própria série recebeu 18 indicações em 2026.

A indicação de Seehorn não veio sozinha. Carlos-Manuel Vesga, como Manousos, e Karolina Wydra, como Zosia, também tiveram esse reconhecimento pelo Emmy, ao lado de Miriam Shor, Jeff Hiller e de outros integrantes do elenco. A produção acabou levando quatro Emmys nas categorias técnicas e criativas, incluindo edição, design de produção, música de abertura e mixagem de som. É um conjunto de premiações que ajuda a compreender que a força de Pluribus não está concentrada apenas no conceito, mas também em um trabalho extremamente meticuloso de toda a equipe escolhida para dar vida ao seriado.

O reconhecimento chegou antes mesmo de a temporada terminar de sedimentar seu lugar no imaginário do público. A série venceu o Gotham Television Award de Breakthrough Drama, e a Apple classificou a primeira temporada como um sucesso mundial, destacando a aclamação crítica recebida pela produção. Existe, porém, uma diferença interessante entre o reconhecimento crítico e a maneira como parte do público reage à série. Pluribus exige uma disposição de paciência que o modelo atual de consumo audiovisual frequentemente desencoraja. A série não parece interessada em transformar cada episódio em uma corrida até a próxima grande revelação. Gilligan trabalha com planos longos, silêncios, pequenas ações e conversas que podem parecer banais até que alguma coisa dentro delas comece a incomodar o espectador. É uma dramaturgia que confia em quem está do outro lado da tela e, justamente por isso, produz um desejo curioso de continuar assistindo.

Essa é uma das maiores contradições deliciosas de Pluribus. Trata-se de uma série feita sem pressa que provoca uma enorme vontade de maratonar. Quanto mais tempo Gilligan demora para explicar o funcionamento daquele mundo, mais queremos descobrir suas regras. Cada episódio oferece informação suficiente para alimentar a curiosidade e preserva mistério suficiente para impedir que ela seja satisfeita. É uma engenharia narrativa bastante precisa, ainda que paradoxal. A série não precisa terminar cada capítulo com uma revelação gigantesca porque aprendeu a convencer o espectador de que existe uma resposta interessante esperando alguns episódios adiante.

Também por isso os personagens ganham tanta importância. Manousos, Zosia, Helen e os demais indivíduos que orbitam Carol ajudam a mostrar que cada relação acrescenta uma camada diferente à questão central do material. O que significa permanecer indivíduo quando todos ao seu redor encontraram conforto na coletividade? O que acontece com a memória, com o desejo, com o ressentimento e com a intimidade quando as fronteiras entre as pessoas deixam de funcionar como antes? E, principalmente, será que a liberdade continua sendo desejável quando viver livremente significa também carregar solidão, frustração, medo e sofrimento?

É bem provável que seja justamente essa última pergunta que torne Pluribus tão contemporânea. Nossa cultura passou décadas prometendo soluções para eliminar desconfortos. A tecnologia deveria aproximar as pessoas, os algoritmos deveriam conhecer nossos gostos, os serviços deveriam antecipar nossos desejos e as redes sociais deveriam criar comunidades. Aos poucos, descobrimos que uma vida completamente otimizada também pode se tornar uma vida profundamente controlada. Gilligan transforma essa inquietação em distopia e leva a ideia ao limite: e se finalmente encontrássemos uma maneira de eliminar boa parte da solidão humana? O preço disso poderia ser abrir mão de uma parcela daquilo que torna cada pessoa única.

É impossível assistir à série sem pensar também na relação contemporânea com a felicidade. Existe uma indústria inteira dedicada a nos convencer de que devemos estar bem, produzir mais, consumir melhor, dormir melhor, trabalhar melhor, relacionar-nos melhor e administrar nossas emoções com eficiência. Pluribus introduz uma pequena heresia nesse discurso ao colocar o conflito como parte daquilo que somos. Talvez a capacidade de discordar, de desejar coisas diferentes, de ficar irritado, de sofrer e até de ser inconveniente seja também parte da experiência de estar vivo.

Isso ajuda a explicar por que Carol é uma escolha certeira como protagonista. Ela não é necessariamente uma personagem fácil de amar. Seu isolamento produz comportamentos contraditórios, escolhas, no mínimo, questionáveis e momentos em que sua própria personalidade se transforma em obstáculo contra ela mesma. E isso é importante, afinal, Gilligan não buscou construir uma heroína perfeita para defender a individualidade dos habitantes do planeta azul. Uma mulher imperfeita está no centro das atenções e é ela quem precisa descobrir se vale a pena continuar mantendo a mesma postura quando o mundo inteiro parece ter encontrado uma alternativa aparentemente melhor.

É nesse ponto que a expectativa pela segunda temporada se torna especialmente interessante. A primeira temporada deixou questões suficientes para sustentar uma continuação sem transformar Pluribus em uma simples máquina de explicações. A Apple já havia renovado a série para uma segunda temporada, garantindo a Gilligan espaço para continuar desenvolvendo esse universo. O desafio agora é preservar justamente a sensação de descoberta que fez a primeira temporada funcionar.

Eu espero que a segunda temporada mantenha essa confiança. Quero respostas, evidentemente, mas quero que elas venham acompanhadas de perguntas ainda melhores. Quero compreender mais sobre a natureza daquela transformação, sobre os limites da consciência coletiva e sobre o lugar que Carol pode ocupar nesse novo mundo. Quero ver até onde Manousos pode chegar, entender melhor as motivações de Zosia e descobrir quais outras consequências Gilligan guardou para seus personagens. Acima de tudo, espero que a série continue respeitando o próprio ritmo.

O elenco de Pluribus  reunido durante a divulgação da série, ao lado de Vince Gilligan
O elenco de Pluribus  reunido durante a divulgação da série, ao lado de Vince Gilligan

É difícil não acreditar que esse seja o grande mérito de Pluribus em uma época de televisão construída para ser consumida em velocidade máxima. A série não parece preocupada em vencer o espectador pelo cansaço, pelo choque ou pela quantidade de acontecimentos. Ela prefere conquistar pela curiosidade. Seus criadores sabem que uma história pode permanecer na cabeça por horas simplesmente porque determinada cena terminou alguns segundos antes de entregar aquilo que esperávamos.

Depois de Breaking Bad e Better Call Saul, Vince Gilligan poderia ter escolhido repetir uma fórmula palatável. Em vez disso, decidiu construir uma história sobre uma humanidade que encontrou um jeito de viver em harmonia e colocou no centro dela uma mulher profundamente desconfiada dessa felicidade. É uma premissa simples de explicar e difícil de esgotar, justamente porque toca em uma questão que permanece aberta mesmo depois do encerramento do último episódio, afinal, quanto de nós estamos dispostos a entregar em troca de uma vida sem conflitos?


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