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Ouroboros e o Ciclo de ViolĂȘncia Sem Fim

  • Foto do escritor: Carlos Pedroso
    Carlos Pedroso
  • 5 de ago. de 2025
  • 2 min de leitura

Seria Ouroboros o maior hype sem hype? Talvez. Fui guiado pela confiança de minha amiga DĂ©ia, que, convicta, garantiu: “Pode ler sem medo, Ă© realmente muito bom.” E, para surpresa de zero pessoas, nĂŁo era apenas bom, era arrebatador.



A obra nos conduz pela jornada de Kesler, um policial que, apĂłs um episĂłdio traumĂĄtico, retorna Ă  casa onde cresceu. É ali que ele se vĂȘ compelido a enfrentar o passado, a encarar as marcas deixadas por uma relação materna dilacerada. Determinado a cortar o cordĂŁo que o prende Ă  dor e a renascer como um novo homem, Kesler descobre que quanto mais tenta se libertar, mais o futuro parece escapar de suas mĂŁos.


Embora Ouroboros flerte com os elementos de um suspense, o que encontrei foi um drama familiar intenso — um ciclo interminĂĄvel de violĂȘncia e abuso que serpenteia de mĂŁe para filho, como se o destino fosse uma herança maldita. HĂĄ momentos em que o trauma Ă© tratado com uma sutileza quase etĂ©rea; em outros, Ă© um soco no estĂŽmago. Essa oscilação mantĂ©m o leitor sempre em terreno incerto, sem saber ao certo o que Ă© realidade, lembrança ou fantasma emocional. E Ă© nesse jogo de espelhos que a obra brilha. Sua narrativa nĂŁo linear, costurando passado e presente, nos lança para dentro da histĂłria como cĂșmplices silenciosos. Em mais de uma passagem, me vi revisitando minhas prĂłprias memĂłrias, algumas doces, outras espinhosas.


O grande triunfo de Ouroboros estĂĄ na sua recusa em se vender como grandioso. Ele prefere se apresentar como uma histĂłria fragmentada, enigmĂĄtica, na qual as lacunas sĂŁo tĂŁo importantes quanto as respostas. Luckas Iohanathan maneja esse caos com um cuidado raro: mesmo ao tratar de temas pesados, violĂȘncia domĂ©stica, abuso psicolĂłgico, traumas de infĂąncia, evita o explĂ­cito, recusando o sensacionalismo grĂĄfico. Ao contrĂĄrio, amarra o peso da narrativa ao silĂȘncio das imagens, Ă  melancolia das cores.


E aĂ­ reside o charme absoluto de Ouroboros: a simbiose perfeita entre roteiro e arte. Iohanathan cria um casamento harmonioso entre o dito e o nĂŁo dito, sustentado por uma paleta restrita de azuis e cinzas que parece filtrar a prĂłpria luz da histĂłria. Nos momentos de silĂȘncio, a arte fala e fala alto.


Ao virar a Ășltima pĂĄgina, fui tomado por aquela estranha alegria triste, a mesma que vem quando se reconhece a beleza mesmo no que dĂłi. As lembranças vieram como ondas, misturando saudade e ferida. E ficou a certeza: Ouroboros nĂŁo Ă© apenas sobre o peso do passado, mas sobre a urgĂȘncia de romper ciclos antes que devorem tudo, como a serpente que morde a prĂłpria cauda.


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