O Pinóquio Aventureiro 3: e se Pinóquio nunca tivesse sido uma história infantil?

Existe um pequeno equívoco na nossa memória coletiva sobre Pinóquio. Talvez porque a versão que ficou mais conhecida seja aquela em que um boneco de madeira sonha em se tornar um menino de verdade, muita gente tenha esquecido que a história original de Carlo Collodi estava bem distante de uma fábula açucarada. Publicado em livro em 1883, As Aventuras de Pinóquio nasceu em uma Itália marcada por transformações sociais, pobreza e dificuldades econômicas. Fome, trabalho, sobrevivência e desigualdade atravessam a narrativa com uma frequência que costuma desaparecer nas versões mais suavizadas do personagem.
O Pinóquio de Collodi não é exatamente o bonequinho simpático que a memória popular ajudou a construir. Ele é desobediente, impulsivo, frequentemente egoísta e vive em um mundo onde as consequências de suas escolhas são bastante concretas. A fantasia existe, mas nunca está muito distante da realidade. É justamente nessa fresta entre o Pinóquio que conhecemos e aquele que talvez tenhamos esquecido que entra “O Pinóquio Aventureiro”, trilogia criada pelo quadrinista carioca Lipe Diaz.

Agora, com “O Pinóquio Aventureiro 3 - O Segredo Revelado”, Lipe Diaz fecha a trilogia em uma campanha de financiamento coletivo no Catarse e coloca seu Golem-Pinóquio diante da pergunta que talvez seja a mais difícil de todas. De onde viemos, o que carregamos de quem nos criou e, sobretudo, em que momento deixamos de ser aquilo que imaginaram para nós e começamos a descobrir quem somos?
Na trilogia de Diaz, o protagonista é um Golem-Pinóquio criado pelos inimigos de Gepeto, um guerreiro aposentado que carrega as próprias marcas do passado. Essa origem desloca o centro da história. A jornada deixa de girar em torno do desejo de se tornar um menino e passa a acompanhar uma criatura em busca de respostas sobre sua própria existência, tentando compreender por que foi criada e qual lugar pode ocupar no mundo.

Cabe dizer que essa é uma questão que aproxima a HQ de uma longa tradição da fantasia e da ficção especulativa. Criaturas artificiais, autômatos, monstros e seres construídos por mãos humanas frequentemente funcionam como espelhos de seus criadores. Frankenstein, de Mary Shelley, é talvez o exemplo mais evidente. Victor Frankenstein cria uma criatura movido pelo desejo de desafiar os limites da vida e acaba diante de questões sobre responsabilidade, abandono e pertencimento. Collodi percorreu um caminho semelhante algumas décadas depois, ao transformar um boneco de madeira em personagem de uma história sobre amadurecimento, identidade e o desejo de encontrar seu lugar no mundo. Em “O Pinóquio Aventureiro”, essa busca ganha novas camadas e passa também por questões como pertencimento, autoconhecimento e legado.
Não por acaso, estudos contemporâneos sobre Pinóquio aproximam o personagem de discussões sobre identidade, humanidade e pós-humanismo. O boneco que deseja ser humano também pode ser lido como uma história com referências às fronteiras entre objeto e sujeito, criação e criador, corpo e identidade. É uma discussão aparentemente moderna, mas que está encapsulada em um pedaço de madeira falante repleto de outras peculiaridades.
Talvez seja aí que esteja uma das características mais fascinantes da fantasia, sua capacidade de criar mundos oníricos para conversar sobre problemas muito reais. Dragões, golems, criaturas mágicas e reinos imaginários podem assumir diferentes formas dentro da narrativa, mas frequentemente carregam questões concretas como poder, pertencimento, família, morte, medo, identidade, violência e desigualdade. Ao deslocar esses conflitos para paisagens extraordinárias, a fantasia amplia nosso campo de visão e encontra novas maneiras de falar sobre aquilo que conhecemos tão bem.
No caso de Collodi, esse mecanismo é especialmente interessante. A narrativa fantástica está profundamente conectada ao contexto social de seu tempo. A pobreza, a fome, o trabalho e a dificuldade de sobrevivência fazem parte da experiência do personagem. É também por isso que recuperar um Pinóquio menos domesticado pode ser tão interessante. “O Pinóquio Aventureiro” parece partir dessa mesma compreensão, mas troca a fábula moral por uma aventura de capa e espada.
Se Pinóquio está tentando descobrir quem é, Gepeto também precisa olhar para trás. No terceiro volume, o passado do personagem ganha protagonismo. A proposta da HQ é revelar os segredos que cercam sua história e acompanhar o processo de criação do Golem-Pinóquio, da ideia à arte conceitual, até chegar à escultura.
Esse detalhe ganha um peso especial na narrativa. Gepeto transforma uma ideia em matéria e, durante esse processo, suas experiências e seus traumas acabam inscritos na própria criatura. A criação do Golem-Pinóquio assume, assim, uma dimensão quase artesanal, em que memória, afeto e passado também moldam aquilo que nasce de suas mãos.
É uma ideia que atravessa diferentes tradições da literatura fantástica, do Golem da tradição judaica aos autômatos da ficção científica, passando pela criatura de Mary Shelley. Em todas elas existe uma inquietação semelhante: o desejo humano de criar, reproduzir ou fabricar aquilo que normalmente pertence ao domínio da vida. Pinóquio se encaixa perfeitamente em uma das versões mais populares dessa obsessão. Mas, nesta história, o criador também precisa responder pelo que colocou no mundo.
Também cabe dizer que clássicos não permanecem vivos porque são intocáveis e sim porque continuam permitindo novas indagações. Pinóquio já passou pela literatura, pelo cinema, pela televisão, pela animação e pelos quadrinhos. Cada época parece encontrar no personagem alguma coisa diferente para dizer. Em algumas versões, ele é uma fábula sobre mentira. Em outras, sobre infância. Há leituras sobre obediência, amadurecimento, família, humanidade e até sobre aquilo que significa possuir um corpo.
Lipe Diaz escolhe fazer isso pelo caminho aventuresco. Sua versão do boneco de madeira encontra espadas, inimigos, segredos e batalhas, mas a jornada mais importante acontece dentro da própria memória. “O Pinóquio Aventureiro” tem ainda uma origem curiosa. A série começou em uma sala de aula no Rio de Janeiro e cresceu exponencialmente, até se transformar em uma trilogia independente. O primeiro volume, “A Origem”, apresenta a criação do Golem. O segundo, “A Espada Oculta”, revela que Gepeto descobriu que seu filho escondia uma espada. Agora, “O Segredo Revelado” promete colocar o passado do guerreiro no centro da narrativa e fechar as pontas abertas nos capítulos anteriores.
A arte é de Gustavo Stumbo, ex-aluno da LDZ Estúdio Escola, fundada por Diaz. Esta é sua primeira série de quadrinhos. Com cores de Geraldo Filho, diagramação e letras de Edu Teller e revisão de Miguel Felício, o terceiro volume terá 36 páginas coloridas em formato 21 x 29,7 cm.
É uma produção independente que carrega, de certa maneira, uma segunda história dentro da própria história: a de um projeto que começou em uma sala de aula e foi ganhando corpo até se transformar em uma trilogia, um pouco como o próprio Pinóquio, que nasce primeiro como ideia, depois ganha matéria e, finalmente, precisa lidar com a pergunta sobre aquilo que se tornou.
O lançamento de “O Pinóquio Aventureiro 3”

A campanha de “O Pinóquio Aventureiro 3 - O Segredo Revelado” está em andamento no Catarse e funciona como pré-lançamento da edição física. Entre as recompensas estão o terceiro volume físico, combos com os livros anteriores, versão digital, ecobag e uma action figure modelada em clay. Caso a primeira meta de apoiadores seja alcançada, todos os participantes receberão também um marcador de página exclusivo, que não será comercializado posteriormente.
Os apoiadores ainda terão seus nomes incluídos em uma página de honra da edição. A entrega está prevista para eventos como FIQ e CCXP 2026, além da opção de envio postal.
Talvez o mais curioso nessa história seja que Pinóquio continue fazendo a mesma pergunta há mais de cem anos, apenas mudando a forma de formulá-la. Collodi perguntou o que seria necessário para um boneco virar menino. Lipe Diaz parece interessado em uma questão ainda mais complicada: e se descobrir quem somos for mais importante do que descobrir no que precisamos nos transformar?
Serviço
O Pinóquio Aventureiro 3 – O Segredo Revelado Autor e editor: Lipe Diaz Ilustrações: Gustavo Stumbo Cores: Geraldo Filho Diagramação e letras: Edu Teller Revisão: Miguel Felício
Formato: 21 x 29,7 cm 36 páginas coloridas Papel offset 90g Campanha no Catarse até 13 de outubro de 2026 Entrega prevista para FIQ e CCXP 2026 ou por envio postal
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