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Muito Além Daqui: a obra mais introspectiva de Chabouté

  • Foto do escritor: Carlos Pedroso
    Carlos Pedroso
  • há 6 horas
  • 4 min de leitura

Quantas vezes adiamos alguma coisa até o momento em que ela simplesmente deixa de acontecer? Ou, quando finalmente fazemos, percebemos que nada saiu como imaginávamos? Em Muito Além Daqui, Chabouté parte justamente dessa frustração entre a expectativa e a realidade para construir uma de suas obras mais introspectivas. E, no processo, sugere algo bastante simples: talvez sejam justamente as coisas que estão ao nosso lado, aquelas que quase nunca enxergamos, que realmente possam dar sentido à nossa vida.



A história parte de uma premissa aparentemente simples. Depois de vinte anos trabalhando como vigia noturno de um estacionamento subterrâneo, tudo o que Alexandre deseja é conhecer de perto o mundo do qual viveu isolado durante tanto tempo. E seu primeiro destino será o Alasca. Ele estudou guias de viagem, comprou equipamentos, preparou as malas e está finalmente pronto para começar sua grande jornada.


Só que nada sai como planejado.


Diante de uma viagem completamente diferente daquela que imaginou, Alexandre precisa redescobrir não apenas o lugar onde vive, mas também a maneira como observa o mundo. Aos poucos, percebe que, quando estamos atentos ao que acontece ao nosso redor, até os espaços mais banais podem revelar algo. Em uma espécie de pacífica vigilância, ele passa a embarcar na imaginação e na curiosidade, encontrando aventura, poesia e beleza justamente onde antes parecia não existir nada.


Por isso, Muito Além Daqui é muito mais do que a história de um homem solitário que trabalha, repete sua rotina e sonha em viajar para o Alasca. Alexandre funciona quase como um reflexo das nossas próprias frustrações. Passamos boa parte da vida depositando ambições e expectativas de felicidade em algo distante, enquanto ignoramos o que está ao nosso alcance. Quantas vezes não pensamos: “quando eu tiver isso” ou “quando eu conseguir aquilo, aí sim as coisas vão valer a pena”?


Chabouté subverte essa lógica sem cair na mensagem simplista de que basta conhecer melhor o lugar onde vivemos. A vizinhança, aqui, funciona como uma metáfora do próprio personagem. Antes de descobrir o mundo, Alexandre precisa descobrir a si mesmo.


Existe quase um “conhece-te a ti mesmo” atravessando toda a narrativa. O quadrinho transforma a exploração dos arredores em uma jornada de autoconhecimento e questiona nossa tendência de associar mudanças pessoais a acontecimentos futuros. A viagem, o emprego novo, a casa, o dinheiro, a conquista que ainda não chegou: frequentemente imaginamos que alguma dessas coisas será responsável por transformar nossa vida. Alexandre descobre justamente o contrário. Talvez a transformação precise acontecer antes.


E Chabouté é particularmente eficiente ao abordar esse tipo de questão, pois poucos autores sabem explorar o cotidiano com tanta naturalidade. Ele parece compreender aquilo que nos aflige nas pequenas coisas e, principalmente, sabe transformar sentimentos comuns em conflitos narrativos sem torná-los banais. Seus personagens carregam, quase sempre, o desejo de conhecer, explorar ou mudar algo em suas vidas, algo bastante humano, e é justamente essa inquietação que os torna interessantes.


Alexandre não é diferente. Ele vai revelando suas camadas aos poucos, conforme aquilo que deveria ser uma aventura pelo mundo se transforma em outra espécie de viagem.


Nesse sentido, é difícil não estabelecer um paralelo com A Vida Secreta de Walter Mitty, filme de 2013 estrelado por Ben Stiller. As duas obras partem de personagens presos a rotinas e alimentados pela fantasia de uma vida diferente. Mas seguem caminhos praticamente opostos. Walter Mitty efetivamente abandona sua zona de conforto e parte para o mundo, transformando em experiência concreta aquilo que, durante muito tempo, existiu apenas em sua imaginação.


Alexandre não.


Seus planos são revirados antes que a grande aventura possa realmente começar. Mas, em vez de atravessar países e paisagens extraordinárias, ele passa a viajar pelas próprias esquinas. E nelas encontra arte, ou talvez seja ele quem passe a impor um olhar artístico sobre aquilo que sempre esteve ali.


Essa talvez seja uma das maiores virtudes de Muito Além Daqui: mostrar que o extraordinário não depende necessariamente de lugares extraordinários. O mundo não precisa mudar para que nossa relação com ele seja diferente. Às vezes, basta aprender a olhar para a mesma coisa de outra maneira.


Na bibliografia de Chabouté, Muito Além Daqui se destaca justamente por isso. Não necessariamente por superar seus outros trabalhos em desenho, cores ou composição, mas talvez por ser seu quadrinho mais intimista. É uma história que convida o leitor menos a acompanhar Alexandre e mais a olhar para dentro de si.


No fim, o que permanece é uma reflexão sobre nossas próprias ambições, nossos desejos e, principalmente, sobre a complacência com aquilo que nos cerca. Afinal, quem nunca teve vontade de largar tudo e viajar pelo mundo? Chabouté parece interessado em outra pergunta: e se aquilo que você procura, tão longe, já estiver, de alguma maneira, bem diante de você?


Talvez o único pecado do quadrinho esteja em uma característica recorrente do próprio autor: Chabouté tende a repetir bastante os rostos de seus personagens. Para quem já percorreu boa parte de sua obra, inevitavelmente há aquela sensação de reencontrar personagens que já apareceram em outros livros.


É uma pequena limitação visual diante de uma obra que, no restante, consegue fazer algo muito mais difícil: transformar uma viagem que não aconteceu em uma jornada que talvez seja muito maior.



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