Carolina de Jesus, em quadrinhos pela editora Veneta
- Monique Mazzoli

- há 19 horas
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Ontem, 14 de março, seria o aniversário de 112 anos de Carolina Maria de Jesus. E uma de suas obras mais famosas completa 66 anos este ano: Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, publicado em 1960. Livro autobiográfico que narra sua vivência na favela do Canindé, como mãe, catadora de papel, escritora e poetisa.

Carolina foi uma figura importantíssima para a literatura do país, não apenas pela sua contribuição na literatura, mas por sua história de vida. De todas as versões já publicadas, a história de Carolina ganhou também as páginas dos quadrinhos através da HQ "Carolina", publicado pela Editora Veneta, por Sirlene Barbosa e João Pinheiro.
O quadrinho tem trechos do livro “Quarto de despejo'', e revisita a história de vida de Carolina, já na cidade de São Paulo, na favela do Canindé.

Nascida em Sacramento, Minas Gerais (1914-1977), a menina concluiu até a segunda série do ensino fundamental, com um coração cheio de sonhos e histórias para contar, decidiu que seria poeta. Ainda criança, sentia fortes dores de cabeça, ao consultar um médico espírita da cidade, o Dr. Eurípedes Barsanulfo informou à mãe que a menina não tinha nada, além de uma mente em turbilhão, com muitos pensamentos que deveria externar, o que reforçou ainda mais o seu sonho de escrever.
“Sua filha não tem nenhum problema na cabeça. Ela tem muitas ideias e terá que aprender a lidar com isso. A menina vai ser poetisa.”
Ainda jovem, para tentar a sorte na grande metrópole de São Paulo (1947), chegou a morar embaixo do Viaduto do Chá, em uma maloca. Conseguiu apoio, roupas e comida por meio de instituições de caridade. Com o tempo, conseguiu um emprego na casa do médico Euríclides Zerbini, onde teve mais acesso aos livros, que instigaram ainda mais o sonho da mulher de se tornar escritora um dia. Mesmo com pouca escolaridade, seu intelecto era fruto da sabedoria de vida.

Infelizmente, foi demitida (1948) quando engravidou de seu filho João José de Jesus, o que fez com que seu destino a levasse até a favela do Canindé. E foi lá (1950) que deu à luz aos seus outros dois filhos: José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus.
A vida precária, a fome, a subsistência na comunidade, nunca foram motivos suficientes para Carolina desistir, trabalhava de Sol a Sol, de chuva a chuva, com seus pés cansados, um fardo nas costas e uma esperança maior no coração.
Seus filhos ficavam em casa enquanto a mãe saía todos os dias para catar papel, latinha e qualquer coisa que pudesse vender para lhes garantir o sustento, mas a preocupação de uma mãe é o maior peso que pode carregar.
“Meu desejo sucumbir com as agruras da vida quando os filhos vem pedir mamãe! quero comida”
Trecho de “A vida escrita de Carolina de Jesus”, assinado por Elzira Divina Perpétua, baseado em sua tese de doutorado (2000).
Nota da redatora: É possível que algumas transcrições do quadrinho ou do livro de Carolina não contenham o português correto, pois foram conservadas sua forma de escrita, a fim de passar a mensagem da origem da autora, que apesar da grande sabedoria, não pôde completar seus estudos.
Carolina viveu dia após dia de forma valente, mesmo quando pensava em desistir. Enquanto andava pela cidade, conseguia notar a discrepância entre a vida na comunidade, onde as pessoas apenas conheciam a miséria, a fome e a violência, e a vida na cidade, que parecia brilhar em vida... uma vida para poucos, para aqueles que não eram invisíveis perante a sociedade.
“Eu sou negra, a fome é amarela e dói muito.”

Revirando as ruas da cidade, em meio a papéis, latinhas e comida passada, Carolina também buscava o que pudesse alimentar a alma: livros, revistas e jornais. Lia tudo o que caía em suas mãos e, ao final de seu árduo dia, escrevia. Escrevia sobre sua vida, sobre a vida e as pessoas da comunidade. Mesmo com as mãos calejadas do trabalho, Carolina escrevia: ora relatos de seu cotidiano, ora poemas; e até compunha músicas. Seu sonho era, um dia, ver seu nome na capa de um livro, como um dos muitos que se esforçava para ler.
“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus ilustres cristais, seus tapetes de viludo, almofadas de sitim. Quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”
Trecho de “ Quarto de despejo”

O que antes pareciam ser apenas os devaneios de uma mulher sofrida e sonhadora, um dia se tornou luz diante de seus olhos, fazendo cruzar seu caminho com o do repórter Audálio Dantas (1958), que havia conseguido convencer seu chefe, da Folha da Noite, a escrever uma matéria sobre a Favela do Canindé. O homem não pôde acreditar quando ouviu a mulher dizer, em alto e bom som, que colocaria as maldades dos moradores em seu livro. Ao encontrar Carolina, pra sua surpresa, ela lhe mostrou mais de 20 cadernos que continham, em suas páginas precárias, poesias, contos, provérbios e um diário. Mal sabiam o quanto esse encontro mudaria suas vidas.
Audálio escreveu a matéria, que repercutiu em todo o país. Depois desse encontro marcado pelo destino, foram muitos meses em busca de uma editora que aceitasse publicar o livro com o diário de Carolina. Sua vida, enquanto esperava, continuava precária. A espera foi intensa, mas em agosto de 1960, Quarto de Despejo foi publicado com uma tiragem inicial de 10 mil exemplares, e a vida de Carolina Maria de Jesus se transformou para sempre.

Muitos percalços ainda surgiriam em sua vida, como a indignação dos moradores da comunidade, que se revoltaram ao ver suas histórias expostas no livro. Mesmo quando conseguiu tirar a família da pobreza, finalmente podendo se mudar para uma casa de alvenaria em um bairro nobre, encontrou o descaso dos moradores do bairro “chique”, que ainda a consideravam alguém que não pertencia àquele lugar. Apesar disso, seu livro ganhou grande notoriedade em todo o país e, posteriormente, o mundo, sendo publicado em cerca de 40 países e traduzido para 14 línguas.
O quadrinho da Editora Veneta demonstra grande respeito pela história original. É um trabalho incrível de pesquisa de Sirlene Barbosa, com roteiro e arte de João Pinheiro, que merecem reverência pelo resultado alcançado. Ao final do quadrinho, ainda contamos com um material extra que complementa a história narrada, apresentado em ordem cronológica. Esse acréscimo mostra um pouco de sua infância, sua vida em Sacramento, sua chegada a São Paulo e suas publicações posteriores a Quarto de Despejo. Uma história linda sobre a dura realidade de um povo e, ao mesmo tempo, sobre superação.
Para conhecer mais da história de Carolina em quadrinhos, adquira Carolina, por João Pinheiro , Sirlene Barbosa, pela editora Veneta AQUI.





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