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  • Foto do escritorCarlos Pedroso

Preço de capa? Tô fora

Por que diabos ninguém quer mais desembolsar o preço de capa dos quadrinhos? É uma pergunta que tem ecoado pelos cantos dos grupos de quadrinhos, onde o "pagar o preço cheio" virou piada, uma relíquia do passado que ninguém parece disposto a resgatar. Mas por que essa aversão ao preço de capa? Podemos apontar várias razões: preços exorbitantes, um fluxo incessante de lançamentos, entre outros. No entanto, a verdade é que ninguém está disposto a pagar o preço de capa simplesmente porque ninguém sabe mais qual é esse preço. Vamos situar as informações primeiro.



Desde a ascensão da Amazon, as editoras, ávidas por uma fatia generosa do bolo, têm despejado seus estoques nas mãos do gigante do e-commerce, inflacionando assim os valores dos quadrinhos. É uma prática comum quando se lida com esses titãs do mercado, que pagam uma porcentagem do valor de capa dos quadrinhos. Essa manobra fez com que as editoras preferissem vender para a Amazon a vender em seus próprios canais de venda, pois garantia um retorno financeiro rápido. Algumas editoras resistem a essa tendência e continuam a comercializar seus produtos em seus sites, lojas especializadas e eventos. No entanto, como operam em um terreno instável e incerto, acabam por precificar seus quadrinhos mais alto do que aqueles vendidos diretamente pela Amazon. Mas esse é um debate para outro momento, ou talvez você possa ouvir mais sobre isso aqui.



Como isso afeta o leitor que se recusa a pagar o preço de capa? Afeta de maneira significativa. Com os lançamentos já chegando ao mercado com um desconto de 30% na Amazon, e esse desconto muitas vezes se mantendo e até aumentando com o tempo, os consumidores passaram a entender esse jogo e pararam de pagar os valores "cheios". O que antes era uma tendência, agora é a norma entre os leitores de quadrinhos. Na minha opinião, não posso culpá-los. Porém, esse comportamento tem consequências desastrosas para o mercado de quadrinhos. Primeiro, inflaciona os preços em geral. Segundo, cria uma mentalidade onde as pessoas simplesmente se recusam a comprar sem desconto, e terceiro, prejudica gravemente as pequenas editoras e a produção independente, que não têm o suporte da Amazon e acabam pagando o preço por um público que só compra na promoção. É comum ouvir comentários do tipo: "Ah, quando estiver em R$ 50,00, eu compro", ou até mesmo recusar a comprar algo de uma editora independente, comparando os preços praticados pela Amazon, como se um quadrinho independente de 100 páginas por R$ 50,00 fosse um absurdo.



As bancas e as comic shops também são afetadas por essa política promocional, embora ainda tenham algumas vantagens, como a curadoria, o espaço para troca de ideias e a contribuição para a economia local. Elas conseguem sobreviver, mas não sem pagar um preço alto também.


Como mencionei, esse comportamento promocional é prejudicial para um mercado já fragilizado como o de quadrinhos, e vejo poucas pessoas falando sobre isso. Há movimentos para estabilizar os preços, como a chamada "lei do preço fixo", mas não vejo isso como a salvação, apenas como um caminho para melhorar um mercado tão instável. Não estou aqui para demonizar a compra em promoção, pois eu mesmo recorro a isso, e sei que muitas pessoas simplesmente não têm condições de comprar fora de promoção. No entanto, vejo que estamos nos aproximando do limite de uma bolha que está prestes a estourar. Há ainda uma luz no fim do túnel para esse mercado, movimentos como os praticados por algumas editoras independentes trazem um alento.


Além disso, diversos artistas vendem seus quadrinhos independentes a preços justos, contribuindo para uma mudança positiva. Mas algumas editoras parecem não se importar com a saúde do mercado de quadrinhos e agem como se tudo estivesse bem, ignorando o fato de que um quadrinho considerado uma obra-prima, vendido por R$ 189,00, no seu lançamento, logo depois é encontrado por apenas R$ 49,90. Não estou sugerindo que elas devam doar seus quadrinhos, mas talvez focar em tiragens maiores e cativar um público mais amplo seja uma opção viável ou mesma trabalhar com preços iniciais mais atrativos. Porque, quando a bolha estourar, não adiantará correr chorar para a Amazon.


"Este texto reflete a opinião do seu autor, sendo de sua responsabilidade, e não expressa a opinião dos outros membros."


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