
A desconexão globalizada de Robert Crumb e sua família - a história em “Tempos Modernos”, da editora Veneta
- leticiamoraesr
- 9 de mai.
- 2 min de leitura
Robert Crumb já é conhecido como uma das figuras mais polêmicas dentro dos quadrinhos, e em “Tempos Modernos” ele traz sua acidez na companhia de sua esposa Aline e filha Sophie.
Uma antologia de pensamentos, contos curtos e histórias de vida matrimonial tomam conta
das páginas com o característico traço underground, repleto de hachuras e sujidade preenchendo todo quadro.

Aqui, acompanhamos uma versão de Crumb desiludido e sem esperanças de um futuro melhor. Reunindo histórias lá dos anos 80 e 90, o quadrinista já refletia sobre os horrores da tecnologia e a chatice humana condensada, presente em aparições como jornalista em cerimônias do Oscar e Simpósios do modernismo tecnológico.
O convite inicial remonta essa ideia de juventude perdida pelos olhos de um velho cansado, e após as páginas iniciais quem toma conta de boa parte do gibi é a personagem Mode e Seus Amigos, uma serialização que mistura animais antropomórficos, o blasé presente nas figuras da classe média alta de Nova York em meio ao grunge e situações cômicas e desprezíveis que o núcleo de amigos interpreta.
A modelo Mode e seus amigos fracassados se tornou o ponto alto da leitura para mim, entregando humor ácido e historietas engajadas. O problema toma conta nos episódios finais da antologia, quando Aline e Sophie Crumb tomam espaço junto a Robert.

Com Aline e Crumb dividindo páginas, passagens debochadas e escrachadas são postas às claras, com uma camada de desinformação e a relutância quanto à pandemia do Covid. Com Robert sendo abertamente anti vacina e acreditando na propagação de informações enganosas contra o isolamento social, Aline remonta falas contra a cultura woke e a romantização no uso de plantas medicinais durante a quimioterapia e seu mundinho isolado com a presença de yoga para tornear as pernas e bunda.

Problemático em diversos momentos da dupla, “Tempos Modernos” finaliza com o gosto amargo de uma zoação simplista e manifestada por dois idosos condensados em sua bolha. A presença jovial de Sophie Crumb também desperta asco em relação à normalização de atitudes duvidosas.
Belo pela arte e a dualidade das histórias, acabei sem compreender de fato se o autor é reacionário ou tudo foi propagado propositalmente como forma de ironia, já que o mesmo retrata a figura de Trump como sendo uma das pessoas que ele mais abomina e ridiculariza ao final do quadrinho.

“Tempos Modernos” não é uma HQ para agradar, mas exerce a força de pensarmos e desperta sentimentos latentes na medida certa. Um quadrinho que incomoda e, por vezes, desrespeita, acaba como fonte de combustível para um futuro próximo.
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